
Fazia tempo que não tinha essa sensação. Aprendi a ler muito pequena, mal me lembro como era olhar um livro e não saber o que estava escrito. Mas hoje senti de novo o fascínio e a sensação mágica de ver os riscos pretos das letras se transformando em significado.
Koshari entrou no curso de japonês. E precisa de mim para ajudar a estudar. Por isso, vou fazendo japonês por tabela. E hoje, enquanto ajudava ele a estudar, lembrei que temos uma cartilha japonesa em casa.
Eu já tinha folheado ela dezenas de vezes, porque ela é linda. Raríssimas vezes encontrei um livro didático brasileiro tão bonito quanto aquela cartilha. Mas de repente, as letras até então incompreensíveis, faziam algum sentido para mim.
Não todas. Mas quando abri a primeira lição da cartilha, reconheci, ainda devagar, as vogais.
Aquilo era um "a". Do lado, um "i", depois um "u", seguido de um "e". No fim da página, "o".
Virei a página, e reconheci um "su", um "sa", um "ka", um "ko". No meio do texto ilegível, elas brilhavam para mim.
Foi mágico. Ver que aquilo que a um mês atrás, com poucas horas de conversa não era mais algo totalmente incompreensível, mesmo que eu compreenda pouco mais que as vogais. De repente, aquilo era possível. De repente, o texto se abria diante de mim, e minha curiosidade me mordia por não saber o que dizia o texto todo, só letras esparsas.
De repente, eu sabia que ia aguardar ansiosa a volta dele da aula para podermos estudar juntos mais um pouco, enquanto eu treino a grafia das letras na lousa para ele dizer o que elas significam, enquanto discutimos a pronúncia de algo bobo como "aqui" e "lá".
Como é bom aprender algo novo. Como é bom lembrar o quanto é mágico entender as letras.
E é muito mágico ver a alegria enlouquecida do Beija Flor gritando "sapo!" quando aponta para o "s", ou como ele sai reconhecendo todos os "B" e "A" em tudo que a gente escreve. Ele quase não fala, mas fica horas com seus cartões de números 1, 2, 3, 6, que são so que ele conhece bem, vindo com o 4 para confirmar se é mesmo um 4, pegando nosso dedo e esfregando em cada letra e palavra e número, exigindo saber o que está escrito...
É magia para mim ver como a minha casa é sempre a casa dos livros e das letras, mesmo para o Beija Flor, e para nossos amigos, e como os livros de poesia brotam em lugares imprevistos, e como tudo vira aventura e descoberta em páginas de papel...