Entre Pedras da Lua e Pâmpanos

Blog Entryda magia e das letrasFeb 8, '08 11:06 PM
for everyone
Fazia tempo que não tinha essa sensação. Aprendi a ler muito pequena, mal me lembro como era olhar um livro e não saber o que estava escrito. Mas hoje senti de novo o fascínio e a sensação mágica de ver os riscos pretos das letras se transformando em significado.

Koshari entrou no curso de japonês. E precisa de mim para ajudar a estudar. Por isso, vou fazendo japonês por tabela. E hoje, enquanto ajudava ele a estudar, lembrei que temos uma cartilha japonesa em casa.

Eu já tinha folheado ela dezenas de vezes, porque ela é linda. Raríssimas vezes encontrei um livro didático brasileiro tão bonito quanto aquela cartilha. Mas de repente, as letras até então incompreensíveis, faziam algum sentido para mim.

Não todas. Mas quando abri a primeira lição da cartilha, reconheci, ainda devagar, as vogais.

Aquilo era um "a". Do lado, um "i", depois um "u", seguido de um "e". No fim da página, "o".

Virei a página, e reconheci um "su", um "sa", um "ka", um "ko". No meio do texto ilegível, elas brilhavam para mim.

Foi mágico. Ver que aquilo que a um mês atrás, com poucas horas de conversa não era mais algo totalmente incompreensível, mesmo que eu compreenda pouco mais que as vogais. De repente, aquilo era possível. De repente, o texto se abria diante de mim, e minha curiosidade me mordia por não saber o que dizia o texto todo, só letras esparsas.

De repente, eu sabia que ia aguardar ansiosa a volta dele da aula para podermos estudar juntos mais um pouco, enquanto eu treino a grafia das letras na lousa para ele dizer o que elas significam, enquanto discutimos a pronúncia de algo bobo como "aqui" e "lá".

Como é bom aprender algo novo. Como é bom lembrar o quanto é mágico entender as letras.



E  é muito mágico ver a alegria enlouquecida do Beija Flor gritando "sapo!" quando aponta para o "s", ou como ele sai reconhecendo todos os "B" e "A" em tudo que a gente escreve. Ele quase não fala, mas fica horas com seus cartões de números 1, 2, 3, 6, que são so que ele conhece bem, vindo com o 4 para confirmar se é mesmo um 4, pegando nosso dedo e esfregando em cada letra e palavra e número, exigindo saber o que está escrito... 

É magia para mim ver como a minha casa  é sempre a casa dos livros e das letras, mesmo para o Beija Flor, e para nossos amigos, e como os livros de poesia brotam em lugares imprevistos, e como tudo vira aventura e descoberta em páginas de papel...


luthienbr wrote on Feb 9
humm, que delícia ^^
Meu nível de japonês consiste basicamente em saber algumas sílabas, e não precisar ler as legendas para algumas expressões muito usadas em animes, como abunai, kirei, sugoi, baka, e coisas nesse sentido. Mas um dia eu pretendo aprender japonês também.. E quem sabe até Mandarim?
Ano retrasado eu vi uma palestra com uma descendente de chineses lá na USP, a Ya Jen Cha, se eu não me engano, que falava sobre como os ideogramas se formam no chinês, como eram os ideogramas mais primitivos, e como eles foram se aperfeiçoando. Você ia pirar nisso. Acho que eu tenho uma referência aqui dos anais desse simpósio, e outros capítulos também compensam. Se quiser te passo.
Abraços
Lórien
sandothais wrote on Feb 9
Eu tbm aprendi a ler mto pequena e só tenho uma imagem na memória da época que eu ainda não sabia... Eu estava na sala da casa da minha bisavó tentando copiar palavras que uma vizinha mais velha escrevia.`Pra mim não passavam de traços e rabiscos, que eu copiava o mais fielmente que podia. E ela dizia que estava errado, e escrevia de novo pra me mostrar. Eu copiava mais uma vez, e ela escrevia de novo. E o mais engraçado é que parece que eu consigo visualizar aquele caderno com rabiscos incompreensíveis na minha frente...
dancarinalua wrote on Feb 11
A sua casa é magica sarah, eu quero ter a honra de conhce-la, de senti-la! Ela merecia ser citada num livro de fadas!
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