As vezes, a amargura ronda. Porque tem uma carga sutil e avassaladora, a amargura tenta morar no nosso cabelo, formando uma rede que termina por nos sufocar e a tudo que há em volta. Mas a amargura, como um vampiro legendário, tem que ter permissão para pousar. E como um vampiro legendário, sabe usar disfarces para romper nossa defesa, até ser quase desejada.
É natural no nosso povo um espírito de mártir. Um espírito de que temos que sofrer para merecer. E é fácil se distrair do fato de que não precisamos sofrer, se nossa escolha for não sofrer. Quando abdiquei do cristianismo, eu abdiquei do pecado original e de toda necessidade de ver a dor como algo ruim.
Mentira.
Eu abdiquei de ver a dor física como algo ruim muito antes de abdicar da minha antiga religião. Deixar de ver a outra dor como um castigo é questão de tempo, nesse caso.
A amargura me ronda todos os dias. Se me distraio sinto o peso familiar dela sentando no meu ombro. Mas eu lí as obras completas de Cecília, e "aprendi com a primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira". Aprendi que sou sim o abismo e sou sim o ninho no abismo.
E é claro que dói. Continuo com as mesmas neuras, com as mesmas e com novas dúvidas. Olho as pessoas e as desejo. E meu amor pelo mundo me sufoca e dói. Mas eu não me permito o martírio. Eu sinto a dor como o que é: só dor, que vai passar. Que significa algo, ou não. Mas que não é nada metafísco, nada merecido, nada que me oprima. É uma sensação, feito o prazer, o arrepio ou o frio caminhando na pele.
E eu continuo, espanto a amargura com uma risada desumana que me habita as vezes. Espero o cinza ser varrido do céu pelo frio azul do inverno que aproxima. Penteio meu cabelo e ameaço a amargura com o espinho de marfim que guarda aentrada da minha alma.
E a amargura vai embora feito uma bolha nevoenta, deixando em seu lugar uma tristeza familiar e contida, feito um filho de porcelana, que eu escovo e coloco de volta no armário, um pierrot inofensivo de com uma pontinha de beleza trágica enquanto eu saio lá fora e fumo com a loucura, enquanto espero o dia amanhecer e o sol levar tudo de trágico embora.
"e se você me jogar do precipício, não me importo com isso eu adoro voar"
 | Sarah , foi vc que escreveu? Ainda bem que é o fim de uma lunação, mas pesada a barra que vc enfrenta? Deixa a amargura ir embora e não deixa a tristeza familiar entrar.......
|
 | Sarah! Vc é foda, vc é linda, vc é tudo. |
 | Trio, a barra é meio que do momento do ano, tenho percebido em muita gente além de mim...
E Taizita, vc é que é um tudo, amor... |
 | Tem um trecho, no livro que eu estou lendo, "para não ler ingenuamente uma tragédia grega", da Raquel Gazola, que fala de algumas coisas sobre as quais vc disse nesse post. Eu tentei fragmentar de modo que eu postasse um pouquinho para nós, mas não deu. Fica bizarro em citaçãozinha. Então, talvez, eu o poste em algum momento no outro grupo (que, aliás, eu preciso atualizar. Vou ver se dá prá fazer isso agora). Ouvi dizer outro dia que não cabemos bem no mundo de hoje. Talvez seja isso. |
 | É, concordo, eu estou segurando uma também que tem horas.....a barra tá difícil Nunca passei por um momento tão apertado, mas até agora estou lutando contra a amargura, pois não quero que meus filhos percebam. Será a lunação????? |
 | Luthienbr
Anotei isso na minha agenda, que não estava cabendo no mundo de hoje. Geralmente escrevia , na casa , em mim e ontem foi "não estou para este mundo" Duro isso viu? |
| |