Acho que vou pegar a receita de pão de nata que minha avó faz. Meu pai estava dizendo coisas que posso usar para substituir a nata, já que desde que temos microondas o leite não tem mais nata. O fato é que quero lidar com a farinha, moldar o pão. Acho que Demeter está dando as caras de uma maneira que se eu não fizer pão esse mês eu vou ter um troço.
É engraçado, porque quando vi o Papa, minha primeira reação foi um ligeiro desagrado. Embora o Papa seja minha carta, e por tudo que é sagrado, como eu tenho as marcas dessa carta em mim, eu não ando muito papista ultimamente.
Talvez porque o Ratzinger seja duro de engolir, ainda mais para alguém que, nos seus tempos de católica sempre foi Teologia da Libertação... cresci ouvindo minha mãe dizer que a igreja dela é a que fez a opção pelos pobres, as histórias dos padres estivadores, das missões de ajuda aos seringueiros, aos sem terra, minha mãe dizendo que não bastava o quilo que entregavamos todo mês na paróquia, que era preciso mais. O meu hino preferido era o do trabalhador que a mãe ensinou a rezar a ave maria quando criança, mas que cansado do trabalho dormia no meio da oração... e Maria apareceu para ele, dizendo que a vida dele já era uma oração para ela. Minha mãe sempre diz que se um dia a teologia for expulsa oficialmente da igreja, ela larga a igreja católica para ir com essa nova igreja. Me contavam as histórias de São Francisco, e quando eu sai do catolicismo, a primeira oração que saiu da minha boca para uma Deusa foi a mesma cantiga que minha vó me ensinou:
"Maezinha do Céu, eu não sei rezar, só sei dizer, que eu quero te amar. Azul é seu manto, branco é seu véu, mãezinha eu quero te ver lá no céu, mãezinha eu quero te ver lá no céu"
Acho essa cantiga absolutamente triste. Agora eu aprendi algumas maneiras de rezar. Não sou uma garotinha desamparada e quem eu cultuo tem nome e epítetos, não chamaria minhas Senhoras de "mãezinha".
Mas o fato é que todo esse ranço veio a tona quando olhei a carta. Só que conforme fui pesquisar, descobri o seguinte: Hierofante, era o sumo sacerdote nos Mistérios de Eleusis.
E estamos em setembro.
Eu andava ansiosa pelo início de setembro. Precisava disso, precisava escutar no ar a mudança de estações. Está frio, mas o pé de azaléias tem tantas flores que não se enxerga as folhas. E a pitangueira chove pétalas brancas, em semanas teremos pitangas maduras, para macerar no álcool e fazer licor. E os beija flores no sino de vento cantam e dançam.
Me vi pensando em Demeter.
Não tenho me sentido bem, escrever anda difícil, quase incômodo. Mas me vejo pensando em trigo e pão, em trabalhar a massa, deixar crescer, assar, sentir o perfume dela. Não me sinto confortável em mim nesses dias. Mas acho que me faria bem deixar uma porta aberta nos fundos do templo, que dê vista para a cozinha...
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