 | Do amor | Sep 25, '07 11:32 PM for everyone |
Estou fazendo um curso - Formação de Agentes Multiplicadores na Prevenção do Uso de Drogas. Organizado pela revista Renascer, e aplicado pelo DIPE, departamento educativo do DENARC.
Esse assunto me toca. Como alguém que já foi usuária e co-dependente, principalmente co-dependente. Digo usuária e não viciada (e não pensem que é fácil assumir essas coisas, é doloroso), porque viciado é o último estágio de um percurso que, para algumas pessoas, pode ser bem longo de consumo. Sinceramente, minha história de vida é essa e eu não me arrependo de nada, faria tudo de novo e igual. Eu fui, isso sim, com certeza, uma co-dependente. Co-dependente é a pessoa que está envolvida com o viciado, seja família, namorada, ou seja lá o que for, que divide com ele essa situação. E isso é uma barra pesadíssima.
Eu tive três namorados envolvidos com o consumo de cocaína. Nada nunca doeu tanto em mim como escutar os gemidos baixinhos de dor de um garoto de 17 anos, praticamente 16 durante o sono depois de ter cheirado (dá uma brutal dor de estômago). Ele não era um viciado. Usava de vez em quando, mais para impressionar, para tentar parecer mais velho, porque é duro ter 17 anos e o racional estar muito mais maduro que isso, muito mais maduro que seu emocional. Então, eu estava ali, embalando o sono dele e rezando em silêncio para ele nunca mais fazer aquilo. Nós perdemos o contato quando terminamos. Eu não sei como ele está hoje. Não sei como ficou depois. A última vez que o vi, estava mais alto e mais bonito do que nunca, e aquele ar selvagem e inocente ainda se mantinha. Não parecia estar mais envolvido com isso do que no tempo que passamos juntos.
O outro, eu namorei por pouco tempo, mas fomos amigos muito próximos por um bocado de tempo. Eu, ele e o terceiro dessa lista eramos inseparáveis durante uma época. Ele tinha uma história de vida que mexeu comigo e me persegue como um fantasma. Seus pais eram viciados, e ele teoricamente nunca realmente teve a chance de ter outra vida. Ele se envolveu com o consumo muito cedo, parecia mais velho do que realmente era. E a voz dele tinha uma ponta eterna de sofrimento, mesmo quando ria ou estava feliz. Eles morreram de aids, adquirida no consumo de drogas injetáveis. O pai dele era uma pessoa maravilhosa, admirável. Um cara super sábio, super sereno. Queria ter tido mais tempo para conversar com ele, para conhecer a sua história. Na época em que eramos amigos eles faleceram, e foi uma trip horrorosa para todos nós, porque era como vislumbrar o futuro repetindo o passado. Não para mim, que no fundo sempre desejei morrer cedo, mas para os dois ali, meus amigos e mais que amigos, e outros garotos que conheci através dele, todos envolvidos com coisas muito maiores do que podiam aguentar.
Prevenção ao uso de drogas começa realmente muito longe do tema das drogas em si. As informações básicas todo mundo tem: drogas são ilegais, acabam com sua saúde, viciam, afetam sua mente, sua maneira de pensar, etc. e tal. E nunca conheci alguém que usasse drogas e não soubesse de tudo isso. Prevençaõ ao uso de drogas começa no amor.
O que mantem uma criança longe do consumo abusivo de qualquer coisa, seja alcool, anti depressivo, cigarro, pó, seja o que for, é acima de tudo, fazer parte de uma ecologia social. Partilhar as coisas, se saber parte de algo. É trocar carinhos, abraços.
Eu descobri hoje que quando a criança/jovem participa das decisões da casa, dialogando com os pais para conseguir as coisas, ele tem uma chance menor de se envolver com drogas.
É preciso ternura, compaixão, e toneladas de amor, que nunca é demais. É preciso que a gente não tenha vergonha de dizer o que sente pros nossos filhos, pais, amigos. Se envolver, estar junto. Beijar, abraçar, amassar. Não existe uma receita pronta para manter alguém longe do vício. Mas seguramente, é só com amor que se evita o pior. Se não evita que se comece, ao menos retarda o contato, ao menos torna mais fácil sair.
Quando penso nos meus meninos, em tudo que passaram, passam, até, quando vejo meus alunos, eu enxergo que uma coisa que leva para o vício é, certamente, sensibilidade demais em um mundo cruel demais.
Eu tive um aluno, que me dói muito pensar nele. Ele tinha 13 anos. Perdeu a mãe. O pai não dava a mínima. Ele era inteligente e sensível. Seus trabalhos de artes eram sempre os melhores, os mais criativos. Ele via mais longe que os outros colegas. Mas eu sozinha não pude suprir a necessidade de afeto, de companhia, dele. Ele acabou sendo "adotado" pelos bêbados de um bar proximo a escola, e eu vi aquele menino virando um alcoolatra, sem conseguir impedir. Enquanto outros professores enxergavam o horror dele ter feito uma tatuagem com caneta bic e agulha, eu via que ele tinha tatuado o nome da mãe. E no ano seguinte, ele não voltou. Foi preso. Foi parar na febem. Furto, arruaça por estar bêbado, coisa assim. Acho que bateu em outro garoto.
Tudo que consigo ver é alguém que não foi permitido ter todo o amor que merecia, a ternura, a pacencia que merecia. E sozinho ele se virou, arranjando os exemplos errados, que estavam ali dispostos a suprir isso. Se houvesse um programa de prevenção eficiente na escola, ele podia ter tido uma outra história. Eu não teria perdido ele como areia entre meus dedos.
Eu vou, assim que entregar a monografia, escrever aqui algumas coisas sobre aquilo que estou aprendendo no curso. Engraçado, eu só ia falar disso em outra hora. Eu ia falar aqui de um ato de amor isolado no meu passado, de que eu nunca tinha me dado conta, envolvendo esse assunto todo. Acabei divagando naquilo que ouvi na palestra de hoje, nas minhas histórias. Esse ato isolado de amor fica para outro dia. Hoje, fica só esse preâmbulo sobre o que vou escrever depois sobre o meu curso.
 | Denso...
Eu e o cinzeiro improvisado aqui ao lado entendemos bem do que você está falando. Pra quem já fumou na vida, sabe que tem horas em que a fumaça que entra vem como um abraço, e também sabe que se naquele momento tivesse um abraço, não precisaria de fumaça nenhuma. |
 | Acho que o nosso trabalho tem um pouco disso... de olhar com olhos que nem todo mundo tem para determinadas situações... claro que não podemos salvar o mundo, mas sabe de tudo isso o que me consola mt? Que dentro de cada um dos meus alunos eu consegui deixar uma marquinha... ser formador tem dessas coisas... |
 | Atendi na Febem um menino cheio de culpa pelo sofrimento que as drogas trouxeram à família dele. Uma história mto triste, que mexeu mto comigo. Mas o que mais mexeu comigo foi o olhar dele...
Trabalhei naquele projeto Baladaboa, de redução de danos no uso de ecstasy. Caí de pára-quedas no projeto, não era minha praia, saí logo, mas abracei a causa da redução de danos, no sentido de dar informações sem fazer julgamento de valor, respeitando o direito da pessoa escolher, e se escolher usar, que saiba usar com um mínimo de segurança. Querer prevenir o uso de drogas dando só as piores informações e repetindo o mantra "droga mata" já está mesmo mais que provado que não funciona.
A prevenção, se é que ela é possível, passa mesmo por aí, por estar junto, estar presente, por saber dar afeto, dar colo, dar oportunidades de suporte, alegria ou até transcendência que não dependam de nenhuma substância. |
 | Já é ruim estar envolvido com drogas, e deve ser ainda mais difícil conviver com pessoas assim. [Mais pela impotência de não sabermos por onde começar a ajuda, o que acaba atrapalhando nossa cabeça.]
Minha mãe é médica no Jd.Ângela, e ontem mesmo ela me contou de 2 irmãos que foram pra Febem, cujos irmãos são viciados e um está preso. Esses que foram pra Febem parecem estar super bem, até melhores do que antes (talvez por terem sido afastados deste meio).
Tomara que projetos, como esse do seu curso, possam formar cidadãos mais presentes nesta realidade. E que isso cresça ainda mais, e destrua o preconceito e o descaso da sociedade. |
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