Ele era bonito como um demônio. Ainda mais assim, tão pouco vestido, o lençol amassado era uma moldura para aquela nádega, aquelas costas largas e macias. Olhando assim, no escuro, enquanto ele dormia, e ela, sentada na janela, enrolada no roupão, fumava um cigarro, era fácil esquecer qualquer coisa que ele fizesse lá fora que pudesse incomodar esse tempo, que era só dos dois.
Passou a mão pelo cabelo, e sentiu a pele da testa. Eles já não eram tão jovens, mesmo assim, a idade que tinham não transparecia. Seu cabelo ainda brilhava como no dia em que o viu pela primeira vez. O dele ainda tinha a mesma cor daquela primeira hora. Ele era jovem e as preocupações que o mundo traria ainda estavam longe. Ele havia ganho sua primeira batalha, ela riu, quem olhasse agora não diria que ele era mais novo, depois de tudo que passaram, de tudo que ele passou, quem olhava agora não imaginava que um dia ele havia sido um menino, que pudesse ficar inseguro diante do desconhecido.
Ele se mexeu no sono.
O que seria desconhecido para ele hoje? Jogou o cigarro dentro do cinzeiro, e se deitou ao lado dele. Sem despertar ele murmurou seu nome e procurou seu corpo, que abraçou ternamente. Ela suspirou. Não importava o que ele fizesse lá fora, era seu nome que ele murmurava no sono. Ela acariciou seu ombro, o cacheado dos cabelos. Mesmo dormindo, ele transpirava força, segurança, virilidade. Suas mãos eram grandes e marcadas. Havia uma ligeira queimadura perto do pulso direito, nada mais que uma marca de ofício. Eram mãos que escreviam leis e puniam criminosos. Que empunhavam armas. E que envolviam seu corpo como se nada mais houvesse a fazer no mundo além de amar.
Ela sabia que a manhã chegaria, e que enquanto ela dormia ele iria embora, cumprir seus deveres, trazer ordem ao caos e civilização às pessoas. E fecundar o mundo inteiro, as vezes lhe parecia.
Mas era seu nome que ele murmurava.
Ela beijou aquelas pálpebras douradas que abrigavam olhos que viam mais longe do que todos os outros. As vezes, ela se perguntava se quando ele começou tudo aquilo, imaginava o quão longe ia chegar. Se sabia o quanto estava destinado para ele. Que carregaria toda a delícia e toda a responsabilidade que carregava. Acariciou sua orelha, que escutava cada um que vinha suplicar, questionar, pedir, e que a todos fazia receber não o que desejavam, mas o que mereciam. Deitou a cabeça no peito que abrigava um imenso coração. Se deixou adormecer.
Ele demorou para se levantar da cama. Não queria que ela acordasse, e ela segurava sua mão com força. Demorou soltando os dedos delicados devagar. Olhou amorosamente aquela boca mais que perfeita, aquele corpo em que se abrigava do mundo. Se pudesse ficaria mais. Mas havia tanto a ser feito, e tanto a ser vivido, a cada dia. Lavou o rosto vendo a imagem dela refletida pelo espelho. Se vestiu.
Saiu pela porta do quarto devagarinho, sem barulho.
Olhou o grande salão, ainda vazio, os raios de sol riscando o ar entre as colunas. Sentou na grande cadeira, a mesinha de apoio coberta de papéis. Leu rapidamente um ou dois. Anotou alguns bilhetes. Deixaria tudo com o mensageiro quando estivesse saindo. Pensou em comer alguma coisa. Mas olhou a vista pela janela, e era tudo tão vasto e tão seu, que preferiu ir até a feira e pegar umas maçãs.