Sarah's posts with tag: bruxaria
Posted by Sarah on Jun 30, '08 8:04 PM for everyone Beija Flor dá uns passos rápidos, meio pulados, quando se trata de independência. Talvez por fazer o próprio ritmo, ele tem dessas.
Deixar fazer o próprio ritmo é meu mote como mãe. Desde o parto, natural, normal, não hospitalar,sem grito, na penumbra, nunca vou me esquecer, sem choro, olhando em volta com naturalidade, sem aumentar um batimento cardíaco.
Desde então, nada foi feito com pressa, embora certas coisas sejam muito mais rápidas do que esperamos. Assim, ele ficou reclinado no carrinho e não deitado desde os primeiros dias, porque chorava se ficasse deitado... queria ver o mundo.
Fazer o pequeno falar foi um desafio e tanto. Não mostrava nenhum interesse na fala até descobrir a escrita. Depois que descobriu a relação entre palavras e letras escritas e o som, começou a falar. Soletra as palavras, lê os logotipos, e aprende os números, já sabe que um, dois e três são quantidades, e conta. Não é de falar muito, é um menino silencioso, e eu respeito seu silêncio.
Mas ele canta, e dança, e sua palavra preferida no mundo é "música", assim ele explica quando batuca com os pés, para não tomar bronca: "é música". Assim ele escolhe os desenhos que gosta de ver na tv: pela música.
E assim, não apressei ele a andar, não apressei a falar, insisto, sim, que se comunique, quando quer alguma coisa, mas deixo que ele trace seu caminho.
É engraçado ver ele falando "Jêus", porque acha que Jesus é Zeus, com certeza é engraçado. Ou querendo acender a vela dos ancestrais, verificando antes de sair de perto do altar que eu esteja longe para soprar a vela...
É engraçado ver que ele decorou a abertura de Backyardigans.
É enervante que toda caneta ou lápis tenha de ser controlado porque senão ele risca desenha e escreve em tudo que for possível.
E que agora ele decidiu que deve tirar a fralda, e como é complicado fazer ele entender que então precisa avisar se quer o banheiro... o que é bem cansativo de convencer alguém que quer fazer tudo sozinho.
É bom ver que ele bebe no copo, que ele nunca tomou mamadeira. Que foi experimentar algo além do meu leite quando tinha mais de 7 meses. Não acho que todo mundo tem que fazer igual, mas fico feliz que com ele seja assim. Fico aliviada quando vejo que ele graças a isso já se livrou da alergia, que pode agora consumir o chocolate que tanto gosta. Mesmo que prefira leite de soja ao de vaca, sempre, ele gosta de iogurte, brigadeiro, e pode comer . E está enorme de alto, e pesando quase 16 kilos. E que isso para quem teve desnutrição por alergia é uma vitória extrema.
E assim ele vai dando seus passos em rumo de uma independência que eu não tenho pressa que chegue, porque quero que chegue com segurança. E assim, ele não vai a escolinha, mas fica com a gente mesmo o dia todo, em regime de revezamento, e carregamos ele para onde vamos. E tudo vai bem.
Já fazem uns meses que ele diminuiu as mamadas. E assim, foi deixando de mamar no peito, naturalmente, no tempo dele. No ritmo dele. Voltando quando se sentia inseguro. E agora, ao que parece, definitivamente parou... sem pressão, sem forçar a barra.
Constrói teu mundo, Beija Flor, mensageiro divino, criança dos caminhos, força no braço e no coração que a tua mãe jamais vai ter. Meu pequeno lobo, meu mestiço de coiote. Segue sempre, que sempre vou estar aqui.
Posted by Sarah on Jun 27, '08 8:54 AM for everyone  I know, I know. Eu sou mala. Eu me permito ser mala, e é isso ai. Quando se fala de uma divindade, é preciso entender que os atributos e as qualidades que ela rege são só uma parte ínfima de tudo que representa aquela divindade. É preciso analisar muito mais que isso quando se quer compreender de quem se trata uma personalidade divina. Uma lista de palavras é tão pouco, tão pequeno, perto de tudo que Eles são. Acho que tem outros focos muito centrais, por exemplo: -filiação/paternidade - quem são os pais e os filhos (se houver) dessa divindade? Através disso vemos a natureza dessa divindade se manifestar. Assim, por exemplo, Leto demonstra sua natureza imanente e celeste quando se pensa que ela é filha do brilho da lua e do arco do céu - portanto, uma substância um bocado sutil. E Apolo carrega os nomes da avó e da prima como epíteto, além de dividir epítetos com a irmã - o que traça uma clara elação entre ele e a família divina a que pertence. Os atributos de Zeus se manifestam em seus filhos, cada filho é desdobramento de uma faceta da personalidade do Pai. E assim vai. -casamentos - do mesmo jeito, isso também explicita um bocado a natureza divina. Vênus e Marte para mim são o grande exemplo, mas Zeus e Métis é imbatível... -epítetos Tem Deuses com 200, 300 epítetos, a maioria de significados diferentes. Mesmo Deuses menos conhecidos, tem uma diversidade de epítetos que deixa besta. Assim, a gente tem uma visão de como age aquela divindade, não simplesmente "mar" mas "a que veio pelo mar". Não simplesmente "caçadora", mas "a de flechas imbatíveis", "a Senhora do arco dourado". Não é só poetizar, é destrinchar o significado. O que nos leva a... -papel dessa divindade nos mitos -muitos epítetos dizem respeito a mitos específicos. Mas além disso, a gente consegue, pelo modo como a divindade age no mito, perceber como ela é. Atena está sempre tramando alguma coisa, Ela pensa em curva, usa artimanhas. Leto é conhecida como a mais gentil, mas apesar disso, metade dos seus mitos é de vingança, o que podemos tirar disso? Zeus é sempre imponente, sem medo, habilidoso e sábio. Cronos é matreiro e soturno. Os mitos explicitam muitas coisas da personalidade dos Deuses. E tem muito mais. Muito. Como é possível se contentar com pouco quando se fala daqueles que São? Amplitude é o que Eles nos trazem, e é com amplitude que devemos busca-los. Enormes, eles nos abarcam. Estão acima da mera racionalização. Mas a busca por informação é aquilo que nos tráz a paixão que deve ser sentida. E lembrar que culto aos Deuses é diferente entre a e b, acima de tudo, porque a e b estão em situações de vida diferentes, em épocas diferentes, com problemas e anseios diferentes, com métrica poética diferente. E não necessariamente que os Deuses sejam totalmente outros, só porque vestem túnica, toga, ou calça jeans.
Posted by Sarah on Jun 24, '08 7:53 PM for everyone Inverno. Devo ter algo de muito invernal no meu espírito. Apesar de tudo e qualquer coisa, o inverno me faz bem, muito bem. Esse frio todo me faz sentir viva. Propício que seja agora que tudo isso tem acontecido.
O primeiro semestre do ano foi bem ruim para mim. Os Enamorados estavam lá pairando para me lembrar que como estava não podia ficar. Eles exigiam uma escolha que eu não me sentia pronta para fazer.
Mas quando eu fui ver os xamãs, aconteceram duas coisas. Uma, eu me senti fortalecida. Toda a estagnação que estava presa na minha coluna foi embora. Não foi bonito não...rs Foi sujo. Mas quando eu estava lá, eu ouvi umas coisas que me colocaram a cabeça no lugar.
Eu me lembrei que um dia eu optei por estar presente. Optar por estar presente - o caminho do guerreiro. Lembrei que fui criada para isso. Para ser guerreira.
E aquelas mulheres disseram coisas para mim muito importantes. -Eu preciso me permitir o prazer. -Eu não posso deixar ninguém me sugar. O que leva a: -Preciso pensar mais no que me torna eu mesma -Preciso de mar, andar descalça, contato com a natureza -Preciso voltar os olhos para trás e parar de deixar coisas interminadas por aí
Eu fiz as pazes com o espírito do chocalho, eu acho. Creio que o chocalho que vou fazer, que fui instruida a fazer, não vai partir como todos desde que o espírito do chocalho se zangou comigo.
Isso tudo mexeu comigo. Percebi que não podia mais permitir ser suscetível. Precisava me focar. E ai, fizemos o exercício com o Leo Artese. E minhas palavras na roda de transformação me deram um ímpeto novo.
A segunda feira chegou e partiu e eu não me permiti que fizessem mal. Passei pela escola como se não fosse comigo, porque, na real, não é. E assim estou. Estou lá, mas estou isenta. Deixo meu envolvimento para as coisas realmente necessárias, realmente válidas.
E assim tem sido.
Domingo, quem veio? O Imperador.
Um semestre de imperador é tudo que eu podia desejar. Claro que me lembro que o que abate minha Torre não é o tridente de Poseidon, mas o raio de Zeus. O raio que me abate e me cega me permite enxergar também... e é nisso que penso quando imagino um semestre inteiro de construção. Um semeste ao lado dEle, Pater, protetor.
Me vejo trançando o cabelo, prendendo um chifre vermelho entre as penas do cisne. Me vejo mais forte, mais eu. E lá vou eu, perguntar ao vento frio, como posso ser ainda mais, Eu.
Posted by Sarah on Dec 10, '07 12:08 AM for everyone teluricomancias Edson Bueno de Camargo ela é agora uma das mulheres da casa ou mulher-casa - assim se podemos dizer esta combinação alquímica de útero e terra umidade e calor entranhas de pedra candente turmalinas mastigadas teluricomancias que aos poucos torna estas mulheres antes novas em luas cheias (toda mulher é um vulcão domesticado a guardar terremotos em seus zelos e perigosos orgasmos) são para a casa outras e as mesmas suas águas e suas telhas o chão que se pisa e o céu sobre as cabeças estas que puxam cordões pelo umbigo de onde tiram as fibras ao qual se atam as meninas e depois os meninos para que não vão embora (e vão) (rompendo em choro à suas partidas) há das quais nos lembram como de janelas e móveis os gonzos das portas retratos nas paredes genealogias femininas benzeduras urdiduras e tessituras os santos de toda a espécie (europeus e africanos, mais os que já estão com a terra) fazem pelas suas bocas: voz (e estas também os homens tanto temem quanto amam) blog: uma lagarta de fogo
Posted by Sarah on Dec 6, '07 4:02 PM for everyone De novo, sem imagens porque estou na escola... Eu estou escrevendo umas coisas sobre os mitos de Leto, e essa aqui é a primeira parte do que escrevi... ainda estou ajeitando, então, relevem erros eventuais...rs "Leto do escuro véu, sempre suave, amavel com os homens e os Deuses imortais, suave desde o início, a mais gentil em todo o Olimpo" Leto é uma titânide, filha de Coeus, o arco do céu, e Phoebe, o brilho da lua cheia. É irmã de Astéria, e Hesíodo a coloca como esposa de Zeus antes de Hera. Está ligada a maternidade e a proteção dos mais jovens, e todos que escrevem sobre ela frisam sua doçura, brandura e suavidade. Seu nome não tem uma origem comprovada, mas seu sentido mais provável tende para "velada", "obscura", "escondida", "a que se move sem ser vista". Isso tanto reflete sua atitude de modéstia como a sua ligação com a idéia daquilo que vai da escuridão para a luz. Sua própria genealogia reflete seu caráter de uma divindade que sai do inefável para o visível, sendo filha da abóbada celeste (que é a escuridão maior) e do brilho iluminador. ________________________________________________________________________ Leto e Zeus se amaram; e desse amor ela gestou os gêmeos divinos, Ártemis e Apolo. Sua gestação não foi fácil: perseguida por Hera, ela fugiu através do mundo A deusa dos braços de alabastro havia ordenado que nenhum lugar da terra desse abrigo a Leto, e sua raiva foi mais profunda contra ela do que contra todas que tiveram filhos de Zeus. Não só por ciúmes: Hera lida diretamente com a estabilidade, o "status quo". E as crianças que nasceriam de Leto eram uma ameaça a sua estabilidade: seriam eles os mais amados por Zeus, mais amados até que os próprios filhos de Hera. Hesíodo se refere a eles como "os mais amados sobre os filhos dos céus", tanto entre os imortais, como entre os homens. Alguns dizem que para fugir da ira de Hera, Leto se transformou em loba e foi para Hiperbórea. Por isso, um epíteto de Apolo é "nascido da loba". É certo que ainda outras vezes, os lobos viram em seu auxílio. Leto, doce e gentil entre deuses e homens, atravessou o mundo buscando um lugar onde repousar e ter seus filhos, mas por temor e sem piedade, todos lhe negavam abrigo. Perseguida pela serpente Pithon, que tencionava mata-la desde que soube de sua gestação do senhor dos céus, foi salva pela intervenção do próprio: Zeus ordenou que o vento norte a erguesse, e a entregasse sob proteção de Posseidon. Foi então que Delos, então Ortygia, uma ilha flutuante, e que portanto não era parte da terra, se ofereceu como um pouso para Leto. Ao tocar os pés no chão da ilha, quatro pilares brotaram das profundezas, fixando a ilha, como agradecimento. Lá, apoiada a uma palmeira, por nove dias ela esperou, sentindo as dores do parto. Hera, no Olimpo, havia cercado Ilítia, senhora dos partos, e sua filha, por nuvens douradas que a impediam de ver que Leto estava em Delos, assistida por Dione, Réia, Ikhnaia (Theia), Têmis, Anfitrite, e todas as grandes deusas, exceto Hera. E havia um motivo para estarem ali, além de qualquer afeto: dali nasceria um grande príncipe, e elas seriam testemunhas para atestar sua majestade. Enviaram Íris para chamar Ilítia, prometendo um colar de ouro de nove cúbitos de comprimento. Íris de pés ligeiros foi até o Olimpo, e junto de Ilítia, voltaram voando o mais rápido que era possível para Delos. Ártemis nasceu primeiro, e auxiliou no nascimento do irmão. Sete vezes os cisnes voaram em torno de Delos, como sete são as cordas da lira. Mas Leto do escuro véu, graciosa e doce, sempre gentil, foi vingada de cada desagravo que sofreu, do primeiro até o último, inclusive os que aqui não contei. Mas isso fica para ser contado amanhã...
Posted by Sarah on Nov 29, '07 11:11 PM for everyone 
Tenho pensado muito nas relações que desenvolvemos com os Deuses, na maneira como nos relacionamos com eles. Tenho pensado muito nisso: devoção, servidão, amor, carinho, gosto, cisma, tudo que vejo rolando pela net a fora. Acho que muitas vezes esse assunto é tratado com leviandade. Claro que nossa conversa sobre se parecer com as divindades na lista stregheria pratica foi engraçada. Porque leveza é bom, sempre, ou quase sempre, porque a vida sabe ser pesada por si só as vezes. O tipo de leviandade que eu falo é na maneira como muitas vezes as pessoas escolhem seus Deuses, decidindo quem vão cultuar num ritual como quem escolhe incenso em uma lista, ou pensando em termos muito simplistas.
Existe muito o “Gosto dessa divindade. Vou adotar como minha e é isso ai”. Não é nem amo essa divindade, é gosto, como eu gosto de gatos ou como eu gosto de saias indianas. Mesmo amor, não basta amor para fazer um casamento, como vai bastar amor para fazer uma relação com uma divindade? Por exemplo, eu e Shiva. Eu amo Shiva. Amo mesmo, em um sentido quase erótico. Ele é lindo, é azul, toca tambor, fuma haxixe, cria e destrói, tem serpentes e dança... quando quero acalmar o Beija Flor, canto “Om Namah Shivaya” para ele. Duas semanas atrás, vi um Shiva do meu tamanho, quase tive um treco, era liiiindo. Só que entre meu “gosto”, ou meu “amor” por Shiva e o Amor que Akka Mahadevi tinha (tem) por Shiva, existem vidas de distância. Akka Mahadevi é uma santa hindu, uma mulher incrível, do tipo que abandona uma vida de princesa para viver como asceta na floresta, cobrindo o corpo apenas com os cabelos, em total comunhão com Shiva. Porque existe mais do que amor em jogo. Existe respeito, dedicação, paciência, cuidado, desprendimento, disciplina, escolhas, abdicar de coisas, aceitar coisas. É muito mais profundo e complexo do que mero gosto. Mais fundo do que admiração ou mesmo identificação. Besteira minha, eu sei, mas me incomoda ver bênçãos de tudo que é divindade sendo escrita/falada como se nada fosse. Ver todo tipo de divindade sendo chamada de mamãe. Sei lá. Eu acho desrespeitoso. Além do que, tenho dúvidas se quero bênçãos de Hécate o tempo todo. Ela é Dadivosa, sim, mas se um cão preto dilacerar meu braço numa encruzilhada (e tenho que passar por algumas bem características todo dia) também é uma benção dEla. Não basta gostar de uma divindade. Vai além de se identificar com ela. Eu não consigo entender como escolher uma divindade. Eu encontrei uma divindade, ou fui encontrada por Ela (eu acho a segunda opção mais precisa, mas soa presunçosa). Não é a mais fácil, não é a mais cômoda. Nem sequer é possível identificar facilmente o que nos liga. Mas é. E poderia não ser, se eu não me dedicasse a desenvolver essa relação. Seria algo que poderia ter sido, e não foi. E me daria mais um tempo correndo atrás do meu próprio rabo. O que me faria me conhecer melhor, como um dia foi necessário que eu corresse... e eu corri, um bocado.
E se relacionar com uma divindade, como se relacionar com alguém, nem sempre é fácil. Exige muito. Não dá para tratar com leviandade, não dá para compartimentar a vida, como se fosse ser aquilo enquanto está em frente ao altar e pudesse guardar no armário o resto do tempo. Vai tomando a gente, forçando escolhas, fazendo opções. Vai mexendo na nossa visão. Vai exigindo respeito. Quando se dá conta, está militando de forma quase agressiva por um parto mais humano, menos traumático, querendo que outras mulheres não passem por aquilo que passou sua mãe. Não quero ser dona da verdade, não acredito em receita de bolo. Mas é assim que vejo as coisas... não sei até que ponto temos noção do que fazemos, quando tratamos de certos assuntos. Sei lá. Como diria Mestre Ambrósio, “terra alheia, pisa no chão devagar”
Posted by Sarah on Nov 21, '07 10:58 PM for everyone Hoje de manhã, fui ter com meu altar e achei um visitante. No prato de porcelana onde acendo vela, um besouro dourado dormia.
Acendi minha vela, e ele nem se mexeu. Pensei que podia estar morto, olhei de perto. Mexeu o rostinho. Me afastei. Acho besouro lindo, mas quando eles voam me dá aflição (já ficou com um escaravelho preso no cabelo?).
Ele estava lá, parado. Bem entre as velas dos Deuses. Como se fizesse sua própria oração.
Sai de lá e ele continuava no mesmo lugar. Meu altar lá, com flores, ofertas, vela, e um besouro dourado, sentado como se nada mais houvesse a fazer no mundo.
Posted by Sarah on Nov 18, '07 11:46 PM for everyone Comentei com minha mãe que faltava um unicórnio de resina entre os meus. Devia estar nas caixas que ainda não consegui abrir (mesmo tendo me mudado fazem dois anos). Hoje ela me apareceu com o unicórnio, o prato dos lobos que eu nem lembrava mais, os dragõezinhos do Koshari. E disse ter achado umas caixas de livros. Fui ver o que era. Não eram todos os meus livros, mas uma parte deles. E me vi olhando velhos livros de pedagogia libertária, minhas duas edições do Livro da Jangal (a-d-o-r-o esse livro), livros de mitos, o Deuses Americanos, um bocado de outros livros. Uma lata onde habita um bilhete que o Anderson escreveu para mim um ano antes de morrer, quando me tirou no amigo secreto da escola. E velhos cadernos. Umas coisas bem escritas, outras mal, inclusive uma muito mal escrita que merece ser reescrita porque o plot é bom. E o caderno azul marinho que era meu livro das sombras.
Acendi um mentolado enquanto folheava o caderno. Que abre com uma oração indígena Ute linda, uma árvore desenhada em lápis de cor, e uma anotação em que escrevi assim: "Este é o livro do meu caminho. Que eu ganhei da minha mãe católica, e ainda assim minha iniciadora. Este livro vai conter tanto acertos quanto erros, e esse é seu maior mérito: ele é a imagem do meu aprendizado no caminho dos Deuses. Que Eles guiem meus passos, sempre" e datado de outubro de 2000. Faziam três anos que eu flertava com o paganismo. De maneira tortuosa ia seguindo meu caminho, e esse era meu segundo caderno. No começo, ele é bem xarope, bem iniciante desesperada em fazer tudo certo. Definições sobre o Deus Chifrudo e a Grande Deusa, duas versões de rituais para a Roda do Ano, com a explicação tirada de algum site sobre porque era importante seguir aquilo. Uma outra oração, bem singela, escrita por mim. Exceto isso, nada com minha opinião pessoal. Ai, vem um título riscado. Eu ia escrever sobre o círculo mágico. Risquei o título e coloquei uma anotação grande, falando sobre usar cocaína, sobre como aquilo mexia comigo e como me deixava isolada, como me puxava para longe dos Deuses. Eu falava sobre me sentir perdida e suja. Escrevi que sentia necessidade de um ritual de purificação e não conhecia nenhum bom o suficiente. Data de julho de 2002, meu pior mês, quando estava realmente mal. Embaixo, só uma frase: "Nada purifica mais que o amor", sem data nenhuma, mas acho que foram poucos meses depois, porque usei a mesma caneta. Puxo na memória, e não, não falo de nenhum homem nem mulher.
Na página seguinte, uma outra notação grande, falando de duas mulheres que me marcaram por sua fé: Govinda, a menina que conheci no templo Hare Krishna, e Irmã Iracema, minha professora da faculdade.
Depois, vem um texto sobre runas. Dessa vez, reconheço minha própria voz. Não era copiado de lugar nenhum, tem opiniões pessoais. Falo dos feitiços rúnicos que fiz, "mesmo não sendo expetacularmente boa nas runas". Cito o livro em que me baseei para escrever.
Corro as páginas em branco. Pouco depois do meio do caderno, um cartão postal com Nossa Senhora segurando o menino Jesus. Sem nenhum halo, manto azul, nada. Um bebê de cara travessa e uma mulher de cabelo escuro e roupa simples. Coisas de teologia da libertação, coisas de minha mãe. Depois do cartão, alguns encantamentos, a maioria tirado de sites, de livros tosquinhos, mas logo surge o encantamento com nós que o Nigel Pennick cita no Jogos dos Deuses, um texto sobre arte pré histórica e suas possíveis raízes mágicas, que fiz baseado no meu livro de história da arte da faculdade, tabelas de horas planetárias, dias, propriedades, feitiços que eu fiz, contra febre, para proteger alguém, e depois uma longa notação sobre o deserto cor de rosa. O Deserto cor de rosa, meu templo espiritual. O lugar onde eu me refugiava em sonhos e visualizações, e que não visito fazem anos. Citações do Mulheres que correm com os lobos.
Peguei uma bic preta, e fiz uma notação, depois de onde escrevi sobre as runas. Falei brevemente das mudanças, de não seguir mais os preceitos wicanos, falei sobre ter um filho, sobre ser adulta, sobre servir Ártemis. Fui breve, ficou uma notação grande, mas pequena pela quantidade de mudanças qu tive desde a última vez que escrevi no caderno, cinco anos atrás.
Olhei o caderno e vi uma outra pessoa. Outra visão de mundo, do caminho, da vida. Um jeito diferente do que tenho hoje, um pensamento totalmente outro. Como mudei de 2000 até hoje. Como cresci, amadureci. Oito anos, muitas diferenças. Assumo que quase chorei, lendo certas coisas, que são difíceis para mim até hoje, como a minha relação com o pó, meus fetiços para proteger alguém que mais tarde eu amaldiçoaria, esse amor duro que existe entre eu e Senhora Hécate, tantas coisas que ali eram mais pressentidas do que vistas.
Imaginei como vai ser daqui outros oito anos. Onde eu estarei? Quem eu vou ser? Resolvi escrever no caderno de novo. Fiz uma árvore genealógica tosca, depois vou refazer. Escolhi umas coisas para copiar, um artigo para colar, um comentário sobre o Núpcias que preciso pensar como fazer. Outros feitiços para marcar, versos de tradição oral, rezas de família. Fotos de antepassados.
Estou olhando o caderno aqui do lado. Encadernado pela minha mãe. Umas duzentas folhas. Pauta lilás. Grande, pesado, bonito na sua simplicidade.
Minha história sendo escrita, na minha própria letra
Posted by Sarah on Nov 8, '07 1:15 PM for everyone Uns meses atrás, meu pai lançou seu terceiro livro de poesia. Na dedicatória que me escreveu, ele escreveu assim: "para Sarah, minha filha, minha semente, co-autora desta obra, um pedaço da responsabilidade ancestral."
O velho como sempre me sacaneia...rs Coa autora porque a idéia desse livro, pegando as poesias mais meorialiostas, mas voltadas pra nossa hereditariedade e para o lado meio mágico do meu pai, foi minha. Ele ia fazendo esses poemas, e eu dei o palpite: faz um livro. O nome, de lembranças e fórmulas mágicas, é meu.
E fui me surpreendendo quando comecei a ler, porque descobri um bocado de poemas que me citavam, de um modo ou de outro...
Cozinhando feijão
Edson Bueno de Camargo
nunca viu sua bisavó filha
cozinhando feijão em panela de ferro de trêspés no braseiro que havia no fundo da casa grande
se sentes hoje compelida a dotes de bruxa talvez também deva a ela
em meio a vapores e fumaça de lenha completando a água amassando alhos assuntando o tempo por entre os galhos das jabuticabeiras nos benzia o tempo todo de mau-olhado e de banzo de criança
minha avó cozia bordados infinitos em panos vindos de Santa Catarina cabelos brancos revoltos óculos na ponta do nariz
a casa na cidade nunca foi bem ao seu gosto foi adaptando os ares de sítio horta, fogão improvisado no quintal seus santos em altares espalhados pela casa
se bem que o que não esqueço era seu olhar de descanso seu sorriso curto quase infantil
minha vó era a madrinha que eu nunca tive
Posted by Sarah on Nov 1, '07 11:52 PM for everyone Eu nasci Sarah Helena Bedeschi de Camargo, porque foi considerado que Bueno de Camargo seria grande demais, e tirar o Bedeschi estava fora de cogitação, porque eu devia ter o nome da mãe e do pai. Minha avó materna, filha de portugueses, morava, junto com meu avô, filho de italianos, na mesma casa que meus pais. Meus avós paternos, eram uma incógnita por muito tempo para mim, só sabia que o vô Antônio, pai da minha avó, tinha vindo do Vêneto. Não da Itália, reparem, mas do Vêneto. O que para ele era diferente, ele que acho que mal sabia o italiano, e que em seus últimos dias só falava sua língua materna. Conforme crescia, fui conhecendo e aprendendo. Que os meus bisavós por parte do vô Domingos, pai da minha Mãe, tinham vindo da Reggio Emilia. Que os pais da vó Clarisse eram de Trás dos Montes ou coisa assim, mas que o vô Manuel, sendo brigado com a família, ou algo assim, não dizia de modo algum nada mais que isso. Que minha bisa, apesar de portuguesa, foi criada num colégio de freiras italianas, e com elas aprendeu muitas coisas, e por aquilo que elas ensinaram criou os filhos, que criaram os netos, e assim, fui eu tbm. E que essas mulheres portuguesas tinham uma fé muito grande, capaz de trazer visões e milagres, e que minha mãe por motivos só dela, abdicou disso formalmente... e que eu, de menina, rezava para a Virgem Maria para ser capaz de voltar a essas coisas antigas. Quem sabe, daqui uma ou duas gerações, aquele antigo poder volte... eu não tenho visões, nem faço milagres, mas tenho muita fé. Aprendi que um antepassado meu, por parte do vô Antônio, foi excomungado e amaldiçoado pelo Papa (assim contavam), por motivo vago, e que por cinco gerações, os homens mais velhos eram vítimas de peste e de doenças de pele, e que meu bisavô foi o último a receber a maldição. E que por parte da Vó Mercedes, esposa dele, eu tinha sangue índio e português. E que Clementina, a índia, foi conquistada a poder de jóias, depois de pega a laço na mata. E por um caminho tortuoso, aprendi ser ela, muito provavelmente pataxó. E que por parte do vô Emídio, pai do meu pai, tenho sangue, orgulhoso, de negra escrava e prostituída, por quem o espanhol se apaixonou e ofereceu vida nova, e que se amavam muito o que causava estranhamento na época... e meu pai diz que meu lado místico veio da vó dele, vó Maria Júlia, de sorriso lindo e cândido, fazedora de remédios, devota de não sei quantos santos, que caminhava dentro do catolicismo mágico, vendo o mundo encantado de que fala a Magliocco. E que por lado do pai de meu avô, vô Zé, homem forte e cujo olhar carrego em mim gravado a fogo, filha do seu neto favorito que eu sou, homens fortes mas cruéis se enumeravam no passado. E muito mais fui descobrindo. Do bebê trocado pelas fadas que está na minha lista de antepassados cujo nome se perdeu, do saci que perseguiu meu avô e o irmão pela estrada, das rezas, dos pés tortos do meu tio Gilmar, curados com fitas bentas, da Nona, que era tão “a Nona” que só muitos anos depois fui saber se chamar Ângela, mãe do meu avô, criando os filhos com rigidez militar e cuidando da casa com o marido entrevado na cama. E tantas histórias. Cresci imersa nisso, e meu primeiro ritual para a Deusa eu fiz cantando a música que minha vó ensinou... “mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei dizer, que quero te amar”... Que mesmo enquanto católica, e eu o fui com fé, eu via não as palavras rígidas da catequista, mas a amorosidade mágica da minha avó. E eu era devota de São Miguel Arcanjo, e consegui graças por ele, e entoava, diante do altar que fiz para ele e para os Santos Anjos da Guarda, porque sou nascida em 2 de outubro, dia dos santos anjos, meu primeiro altar, a oração dele: “São Miguel Arcanjo, protege-me no combate, livra-me dos meus inimigos, São Miguel Arcanjo, que minha força seja tua lança, que meu amor seja tua balança” Porque me recusava a rezar o Pai Nosso, porque não podia perjurar diante de Deus e de Maria, e eu não queria ser tratada como tratava meus inimigos...rs E então, quando numa noite gelada de um janeiro muito quente, eu rompi com o Deus cristão, e me joguei nos braços de Buda, que delicadamente, me passou um pito e mandou andar, eu antes de qualquer Divindade, me refugiei nos meus ancestrais. Pedi pela sabedoria deles, pelo amor deles, que eles me guiassem. Eu chorava muito na época. Mas as vezes, podia sentir a presença amorosa deles me consolando. E fui, aos trancos e barrancos, indo em frente, e acabei, por querer manter forte essa ligação com os ancestrais, indo para a bruxaria italiana, e agora sigo, nesse caminho doido que os Deuses me traçaram, e na qual não me importo de ser títere, voltando aos sonhos de infância, ursinha no cortejo dEla. E quando nasceu o Beija Flor, recitei para ele sua ancestralidade, recitei meus mortos. Pedi que o protegessem. E sei que nunca o véu que me separa deles esteve tão tênue quanto naquelas horas, quando eu sabia que estavam ali, e eu, em transe, podia ouvir coisas que não sei dizer. Tudo isso porque é Finados. E eu vou ver fotos antigas, acender velas, levar flores para seus túmulos. Eu vou cantar e comer e me alegrar neles, que estão tão perto, e, mesmo assim, me fazem tanta falta...
Posted by Sarah on Sep 28, '07 12:16 AM for everyone
Aconteceu uma coisa muito interessante no meu ritual ontem a noite. Eu assumo que tenho uma certa dificuldade com o lado masculino da divindade. Meu rompimento com o cristianismo foi brutal, eu e o Deus cristão (que já tinhamos nossas diferenças quando eu servia a ele) realmente não olhamos um na cara do outro. Amo o catolicismo: Nossa Senhora, os Santos, o Espírito Santo, o Deus Pai é totalmente ignorável...rs E eu no tempo que passei com o povo da wicca nunca me ajeitei com o Chifrudo deles. Meu Deus era Dionísio. E Hórus. Que eram poderosos, sexys, sábios, e no caso de Dionísio, sabia, muito bem, dançar. Mas com quem eu conseguia uma relação, um olho no olho. Quando conheci Shiva, eu literalmente me apaixonei. Durante meses homem nenhum no mundo despertava meu interesse. Só Meu Senhor de Brancos Pés de Lótus, só o sagrado dançarino nas piras funerárias, tocador de tambor, fumador de haxixe, sábio além dos sábios. Shiva era a voz que adoçava meu sono, e a palavra mais suave que permanecia nos meus lábios. Só que o hinduismo é uma religiosidade complexa e eu nunca tive coragem de realmente prestar culto a Ele. Porque não ousaria arriscar ofende-lo fazendo algo errado. Acabei indo parar em Dionísio, de volta. Existe uma ligação entre os dois, toda a relação com o êxtase, com o andar entre os homens, e coisa e tal que não vem ao caso agora. Só que minha relação com Dionísio é baseada em ações cotidianas, não em práticas rituais. Eu simplesmente não consigo. Não sei acender uma vela e rezar para ele. Eu preciso ir para a pista e dançar até perder o chão, e ai meu pensamento começa a entoar "Evoé, evoé Baco", e eu danço até o joelho falhar, o ar acabar, e ai eu saio andando pela noite, eventualmente beijava alguém, sem ver realmente aquele alguém, vendo o Outro, muito maior... só que embora Dionísio more no meu coração, eu simplesmente não consigo honrar a ele como deveria. Não nos últimos três anos. E vela no altar continua não rolando. Não consigo. udo isso era só para dizer que eu nunca me sinto a vontade com uma divindade masculina no meu altar. Nunca consigo me entregar como quero. Na verdade, Apolo foi parar no meu altar por ser irmão de Ártemis, e eu achei adequado ter o irmão ao lado da Senhora. Nessa Lua, aconteceu diferente. Acendi as velas, comecei tudo, e fui tomada por uma serenidade estranha e longinqua. Olhava ali e pensava em Apolo, na luz do sol, na primavera, nos dias longos que se aproximam, e eu e Ele estavamos próximos como nunca antes. Eu olhei o Deus com vontade de beijar na boca, de derramar perfumes sobre ele, de dançar para ele, pentear seu cabelo, ajeitar suas roupas, e sentar no chão quietinha só para poder olhar para Ele tanto tempo quanto eu pudesse. Foi uma sensação tão boa, e tão simples. De repente, havia outro Apolo na minha frente, um nunca visto, nunca imaginado. Relembrei suas histórias, seus rostos, que eu sempre conheci, respeitei, honrei, mas que, até então, não tinham me despertado esse amor todo. Eu sempre o honrei e respeitei, porque era irmão da minha Senhora, e eu pertencendo a Ela não podia descuidar dEle. Mas era diferente. Me vi vendo de verdade. Ele se descortinou para mim. E não como Shiva, como Dionísio, não no extase, na fúria, na paixão. Não na Sarah noite. Não foi a dançarina, a louca, a arqueira, a mãe, a ferina, que estas todas pertencem a sua irmã. Ele simplesmente olhou para mim, e sorriu. Calmo e plácido, forte sem ser agressivo, perfeito na forma do corpo e na presteza da mente. Irmão de minha amada, e meu amado, ao menos desta vez. Ele mexeu com a Helena, a diurna, a tecelã, a professora, a que pacientemente desemaranha os fios, faz funcionar o tear, conversa com as borboletas e as chama "minha irmã", aquela que faz licores, não a que cozinha compotas. Parnassius apollo , a borboleta de Apolo . curiosamente, a primeira borboleta em minha coleçãoHoje, durante a tarde, sem motivo nem razão passei mal do fígado. Como se colocasse para fora um mundo de coisinhas que andavam me fazendo mal...
Posted by Sarah on Sep 27, '07 2:28 AM for everyone
hoje minha primavera chegou de vez, fiz meu rito e amanhã a boneca Kore vai ficar pronta... E com a Lua Cheia, o tarot me levou de volta mas com um novo ponto de vista... para chegar a um Imperador...  que é o próprio Júpiter dando o ar da graça...
Posted by Sarah on Sep 12, '07 2:26 AM for everyone |  | Hoje foi um dia unicornicamente especial. Porque foi o dia que meu primeiro unicórnio internacional chegou em casa...rs Eu sou uma completa apixonada por unicórnios. Toda simbologia, imagem, mito, eu amo os unicórnios absolutamente, e tenho uma longa história com eles. Por consequência, sempre que encontro um objeto que tem a ver com eles, tento adquirir. Minha coleção ainda é mínima, mas é um começo. Hoje chegou um unicórnio que encomendei pelo Etsy, e agora estou abrindo uma nova porta para encontrar unicórnios, as compras internacionais (já que são tão raros no Brasil.)
Faltam alguns, que não encontrei para poder fotografar...
update - fotografei o unicórnio de resina desaparecido, e adquiri mais dois unicórnios... além de uma camiseta que não fotografei ainda...rs |
Posted by Sarah on Sep 7, '07 3:29 AM for everyone Meu insigth do Papa no momento é a questão da pertença. Pertencer a alguém ou algo significa que vc olhou no fundo e viu.E que desde então, não se pode viver sem. Eu vivo uma relação de pertença, por exemplo, com Paraty e Paranapiacaba. Sei que são cidades de que preciso para memanter nos eixos: sua arquitetura, suas ruas, suas pedras, suas luas, neblina e mar, são necessários para o meu funcionamento. Quanto tudo mais falha, é para lá que fogem meus pensamentos. Tenho uma relação de pertença com meu pai. Porque nós brigamos um monte, discordamos, mas andamos abraçados pela rua e compreendemos um ao outro mais que qualquer pessoa na terra poderia compreender. Nossa pertença foi forjada a fogo. Tenho um forte sentimeto de pertença a minha ancestralidade, profundo e enraizado que deu origem ao meu anseio de buscar o culto aos ancestrais. Tenho uma relação de pertença com minha Senhora. Não ouso dizer que sou sua filha. eu sou seu filhote, um cãozinho correndo atrás dEla. Mas eu pertenço. Porque olhei no fundo e foi ali que me encontrei refletida. Pertencer denomina uma relação difícil de definir. Não é mero amor. Nem servidão. Mas não é liberdade, tampouco. Pertença presume ser parte de Algo. Pertença é vínculo, no sentido mais estrito e mais profundo. De todos os sentimentos subjetivos, acho que Pertença é o mais difícil de explicar. É um termo muito usado, que aprendi a usar nas aulas de mitologia, nas relações entre Deuses e homens. Mas muito pouco definido. Não encontro uma definição exata sequer. Sei que pertença vai além da vontade, do desejo. Será que se eu pudesse escolher a quem pertencer, pertenceria a essas cidades, a essa Deusa, a essas pessoas? Não. Não é uma questão de querência, é uma questão de podência, diria minha professora. Envolve termos chaves: tribo, laço, solidariedade (palavra muito mal utilizada por ai, assim como compaixão, que tbm é chave para a pertença), memória, partilha. Transfiguração. Envolve a contemplação e também a exaltação. sentimento de pertença, quando se relaciona com a fé, é transcendência. Pertença é Kore se vendo refletida nos olhos de Hades. É Sidarta se enxergando no Universo. É aproximação. Identidade. Fico por aqui, meio esfumaçada de incenso, olhando a trança presa com cera, tomada pela sensação de pertencer. Que se esvanecerá pela manhã, mas que fica, firme, que me faz saber que não estou só, que posso contar com Alguém, que tenho um lugar para onde correr, que nunca ficarei sozinha, e o peso discreto no pulso me trás segurança. De resto, um interessante post sobre o conceito de comunidade: http://paideia-idalinajorge.blogspot.com/2007/09/em-torno-do-concweito-de-comunidade-ii.html
Posted by Sarah on Sep 5, '07 11:49 AM for everyone Primeiro eu estava com as meninas jogando um jogo de tabuleiro onde se construia castelos e onde os peões eram animais fantásticos. Os castelos eram de plástico transparente, então se podia colocar os peões dentro deles... mas ai chegou meu pai, com um chapéu meio odínico, uma garrafa de vinho daquelas cobertas de palha, arremessando semenste e falando augúrios geomânticos, e nós todos abandonamos o jogo e nos espalhamos pelo gramado.
Começou a chover. Eu peguei o carro, e sai dirigindo, uma mina que não conheço entrou no carro e estava indo comigo. A chuva virou granizo, granizos enormes, enfiamos o carro em uma loja de linhas para fugir da chuva, e ela saiu correndo na chuva. Tentei seguir mas não dava. Voltei para trás, e no lugar onde me abrigava da chuva, tinham preparado chá e bolachas.
Pouco depois, ela voltou. O lugar para onde a gente ia tinha pego fogo. Coloquei ela no carro e sai dirigindo o mais rápido que pude. Ela falou que todas as imagens tinham queimado, menos a de Hécate e uma outra (quando acordei lembrava o nome, acho que é uma ninfa), porque estavam na água. Fui direto nelas quando cheguei. A imagem de Hécate era linda, mas o rio ou lago, não sei, tinha enchido, e ela ficou coberta de água até os seios. Mas era bonito, porque um monte de flores tinha boiado e cercado ela.
O lugar onde as outras imagens ficavam, era uma construção baixa e semi subterrânea. Eu enchi um jarro de água e desci a escada onde um cara estava limpando o lugar. Eu jogava a água do jarro e o cara ia puzando com um rodo, limpando. A gente fez isso no lugar inteiro, usando um único jarro. Só um altar sobreviveu, o altar do inominável, do antigo além do tempo. Nós saimos. Ele perguntou se fazia muito tempo desde a última mamada do André, e eu perguntei porque. Ele disse que não queria leite espirrando no baralho de tarot...
eu acordei. pensando na imagem, jovem, delicada, carregando a tocha, o busto cercado por flores vermelhas e marelas, o olhar forte, pacientemente aguardando as águas baixarem....
Posted by Sarah on Sep 3, '07 2:28 PM for everyone Acho que vou pegar a receita de pão de nata que minha avó faz. Meu pai estava dizendo coisas que posso usar para substituir a nata, já que desde que temos microondas o leite não tem mais nata. O fato é que quero lidar com a farinha, moldar o pão. Acho que Demeter está dando as caras de uma maneira que se eu não fizer pão esse mês eu vou ter um troço.
É engraçado, porque quando vi o Papa, minha primeira reação foi um ligeiro desagrado. Embora o Papa seja minha carta, e por tudo que é sagrado, como eu tenho as marcas dessa carta em mim, eu não ando muito papista ultimamente.
Talvez porque o Ratzinger seja duro de engolir, ainda mais para alguém que, nos seus tempos de católica sempre foi Teologia da Libertação... cresci ouvindo minha mãe dizer que a igreja dela é a que fez a opção pelos pobres, as histórias dos padres estivadores, das missões de ajuda aos seringueiros, aos sem terra, minha mãe dizendo que não bastava o quilo que entregavamos todo mês na paróquia, que era preciso mais. O meu hino preferido era o do trabalhador que a mãe ensinou a rezar a ave maria quando criança, mas que cansado do trabalho dormia no meio da oração... e Maria apareceu para ele, dizendo que a vida dele já era uma oração para ela. Minha mãe sempre diz que se um dia a teologia for expulsa oficialmente da igreja, ela larga a igreja católica para ir com essa nova igreja. Me contavam as histórias de São Francisco, e quando eu sai do catolicismo, a primeira oração que saiu da minha boca para uma Deusa foi a mesma cantiga que minha vó me ensinou:
"Maezinha do Céu, eu não sei rezar, só sei dizer, que eu quero te amar. Azul é seu manto, branco é seu véu, mãezinha eu quero te ver lá no céu, mãezinha eu quero te ver lá no céu"
Acho essa cantiga absolutamente triste. Agora eu aprendi algumas maneiras de rezar. Não sou uma garotinha desamparada e quem eu cultuo tem nome e epítetos, não chamaria minhas Senhoras de "mãezinha".
Mas o fato é que todo esse ranço veio a tona quando olhei a carta. Só que conforme fui pesquisar, descobri o seguinte: Hierofante, era o sumo sacerdote nos Mistérios de Eleusis.
E estamos em setembro.
Eu andava ansiosa pelo início de setembro. Precisava disso, precisava escutar no ar a mudança de estações. Está frio, mas o pé de azaléias tem tantas flores que não se enxerga as folhas. E a pitangueira chove pétalas brancas, em semanas teremos pitangas maduras, para macerar no álcool e fazer licor. E os beija flores no sino de vento cantam e dançam.
Me vi pensando em Demeter.
Não tenho me sentido bem, escrever anda difícil, quase incômodo. Mas me vejo pensando em trigo e pão, em trabalhar a massa, deixar crescer, assar, sentir o perfume dela. Não me sinto confortável em mim nesses dias. Mas acho que me faria bem deixar uma porta aberta nos fundos do templo, que dê vista para a cozinha...
Posted by Sarah on Aug 30, '07 1:50 PM for everyone
para o templo...  Ainda estava meio no silêncio que a temperança me trouxe, acabei demorando a postar minha carta. Foi a primeira vez que usei meu novo tarozinho, o Art Noveau, dessa imagem ai em cima mesmo... agora preciso varrer o silêncio, para dar espaço para esse Papa, que foi, assumo, um bocadinho surpreendente.
Posted by Sarah on Aug 28, '07 1:05 AM for everyone |  | Inspirada pela Luciana, coloquei aqui um livro para colorir para crianças pagãs... e não pagãs tbm,rs. E para nem tão crianças...
Eu tenho um bocadinho de outras imagens, mas acho que vou organizar em pdf para postar... |
Posted by Sarah on Aug 10, '07 2:39 AM for everyone  Estes dias de temperança tem sido silenciosos. Não me animo a escrever, poderia dizer que estou em contemplação. É como se estivesse sentada na janela vendo o mundo lá longe. Me sinto só observando, só deixando a água correr de uma taça para outra, de uma taça para outra, de uma taça para outra... Talvez porque a Temperança é uma carta de águas, águas do inconsciente, na maioria das vezes, estou assim, olhando o grande aquário do mundo.
Posted by Sarah on Aug 5, '07 6:48 PM for everyone Não consegui ir ao encontro de tarot hoje. Fiquei desapontada, porque é um momento importante pra mim, um dos poucos que tenho só para mim. Sempre fui uma pessoa de matilha: tudo que faço é cercada de gente. Família, amigos, sigo muitas vezes o rumo do grupo. Não digo se é bom ou ruim, apenas é. Mas sempre fui a batedora: preciso correr sozinha um pouco, preciso pensar no que é bom para mim e não para a matilha, de vez em quando.
Estranhamente, não fiquei chateada ou com raiva. Foi um fim de semana atípico: o sábado inteiro passado na aula da pós graduação, a noite, resolvi voltar a mestrar rpg para os "meninos" (meninos, hahaha... o mais novo tem minha idade), e acabamos ficando até quase quatro conversando e papeando, e eventualmente jogando... mas a aula, principalmente, e mdeixou esgotada. Então, dez horas, quando o despertador deveria ter tocado, para eu levantar e ir, ele não tocou. Fui levantar quase ao meio dia, e quando olhei pela janela, chovia. Me senti péssima, e o desânimo foi mais forte que eu. Tinha um monte de gente em casa fazendo cara de "fique com a gente" e acabei me rendendo.
Provavelmente amanhã vou ficar fula por não ter ido. O desapontamento pelo menos se mantém firme aqui.
Bom, o que poso no mínimo fazer é falar sobre o que eu ia partilhar no grupo:
Meu mês passado foi regido pela Justiça. Fiz toda uma pesquisa sobre o sentido de "busca pela virtude" que o conceito de Justiça, espelhado na carta, trás. Ela se personificou fortemente na escola no final do semestre, e durante o resto do mês, eu passei a buscar mais a justa medida nas minhas relações pessoais. Foi um mês muito longo, a Justiça é uma carta que para mim foi bem densa. Eu comprei um livro ata para anotar as coisas do tarot, já que o caderno que uso normalmente uso para outras coisas também. Foi um mês de deixar certas raivas de lado: não eram injustificadas, tinham pelo contrário toda justificativa do muno. Mas me faziam esgotar energia onde não vale a pena. Acabei colocando muitas coisas nos prato da balança, e vendo o que valia e o que não valia. Além disso, a Justiça é Libra, e foi um mês de ser muito libriana. Pensei muito nas metamorfoses de que Nietzche, e no caminhoque as cartas tem feito: o mês anterior, foi o Diabo, que é o domínio do instinto. Passei para a Justiça, então, que é o instinto sob controle, mas servindo de guia. Nem escravo, nem escravizador, é preciso atingir o equilíbrio com nosso instinto e nossa sombra, e foi nisso que a Justiça se mostrou .
Para agosto, estou com a Temperança. O simbolo que mais me chamou atenção foi o líquido sendo passado de uma taça para outra, assim como, no caso do tarot do Waite, que leio, a coroa sobre o sol. A temperança tem me surpreendido porque normalmente vemos que ela fala de comedimento, e no entanto ela vai muito além. Ela tem um sentido de mistura alquímica, de mistura de opostos para gerar algo maior ou mais intenso, mais real. Além disso, "temperar" é otermo que se usa para o processo de endurecer o metal, em que ele é aqeucido e imediatamente resfriado: através do fogo e da água, o metal encontra sua força. A temperança me parece uma carta que vai me dar trabalho, porque como eu disse no diabo, eu sou uma pessoa de excessos. Ainda assim, quando ela apareceu, pareceu a sequência natural ao processo que começou na Justiça. Estou na dúvida entre dois pintores que representam esta carta: Leonardo da Vinci, ou Vermeer. Eu tinha inicialmente pensado em Da Vinci, as quando minhas pesquisas começaram, encontrei uma iagem que é a própria temperança, do Vermeer. Como eu tenho me ifxado mais na biografia do autor do que na iconografia, o Leo tá ganhando como símbolo, mas não sei.
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