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Posted by Sarah on Jul 16, '08 4:13 PM for everyone
nem acredito que tenho 15 dias longe da escola e de tudo que ela significa.

15 dias para:

*arrumar o guarda roupa
*organizar o pseudo
*bordar, costurar, pintar
*montar a loja online
*repensar o visual

e se eu conseguir fazer tudo isso vou estar maravilhada...hahahaha

Posted by Sarah on Jul 4, '08 5:40 PM for everyone

Não tinha escrito sobre isso aindas porque não parecia real. Era como se na verdade eu fosse acordar e descobrir que foi um engano...

E eu estaria postando isso horas atrás se a minha internet não tivesse passado o dia todo fora do ar...


Sexta feira mandei um email para o titio Marco Antônio pedindo para ganhar um ingresso para o show de aniversário da Kiss FM. Não estava exatamente num bom dia. Afinal, o Marlon ia viajar para Garça, para o Festival da florada da cerejeira, e eu não pude ir. Pois ele estava tomando banho para sair quando o titio falou meu nome (errado, como a maioria dos mortais =P) no ar, junto com os outros nove felizes que ganharam convites. Eu sai saltitando pela casa, e agradeço a paciência da Cássia e das outras vítimas que encontrei no MSN naquele momento, porque eu estava purpurinicamente insuportável de felicidade.


Mesmo quando o email chegou eu ainda mal conseguia acreditar. Era isso mesmo. Eu ia ver Echo and the Bunnymen, Gene loves Jezebel e ainda levar o TSOL e o Nazi de brinde.


Rememorando, eu adoro Echo e Gene loves... eu sou uma das pessoas que beijou alguém desconhecido na pista do Madame Satã ouvindo Lips like sugar... creio ser desnecessário dizer algo além disso... e eu cresci amando Gene loves porque meu pai um dia chegou com uma pilha de vinis e me ensinou “isto aqui é rock and roll”, e além de ter me transformado numa grungezinha obcecada por Blind Melon e Nirvana, numa fã incondicional de Ozzy Ozbourne, ele me ensinou “e isso aqui vem da Inglaterra”, e a luz se fez, e eu descobri que eu podia sofrer os horrores maiores da existência humana e tudo estaria bem se eu tivesse um inglês de cabelo excêntrico me dizendo que tudo ia ficar bem, ou pior ainda... assim sendo, um dia ele me mostrou Gene loves Jezebel, porque achou que tinha a minha cara... e tinha mesmo. Assim sendo, ver essas duas bandas é meio que tudo que eu possos desejar num show em amplos aspectos emocionais...

E meu primeiro show de rock, no dia em que acharam o corpo do Kurt Cobain, foi um show do IRA!, e ver o Nazi é sempre muito bom (sempre me lembro dele dizendo “um minuto de barulho por Kurt Cobain!”).


Voltando da digressão, eu tinha um email dizendo que era verdade, mas mesmo na terça feira, subindo o elevador por 15 andares de pânico, enquanto o Agostinho (que eu achei na rua e me acompanhou) ria da minha cara, ainda tinha a sensação de que iam dizer que tudo era um engano. Preciso dizer que a entrada da Kiss é tudo de bom, muito simpático aquele hall. Incrível imaginar que a rádio que eu escuto todo dia quase tem um espaço físico real, fora do espaço virtual das ondas fm. Tá, eu sei, é idiota. Mas as coisas ganham outro contorno quando puxadas para o plano físico...

E lá estava eu tocando a campainha da rádio, para pegar os convites que eu suspeitava não existiam... mas existiam. Eu tinha mesmo ganho, meu nome estava mesmo na lista. Eu sai de lá saltitando. Com direito a saltitos pela calçada da avenida Paulista... literalmente. Eu ia no show!


Corta para quarta feira de manhã, últimos acertos sobre quem ficar com o André, eu avisando na escola que “olha, eu não sei se vou conseguir vir trabalhar amanhã porque vou num show de rock essa noite”, o que deixou a massa de professores efetivamente desconcertada... Me senti muito bem com aquilo... ainda tenho uma atitude rock and roll! hahahahaha


Sai da escola, encontrei o Marlon no shopping para comer um lanche, jogar o número do ingresso na mega sena e pegar o caminho do Via Funchal.


Pegar o caminho do Via Funchal é uma aventura a parte. Cortando caminho, o que nos poupa várias baldeações, é trem até Tamanduatei, ponte Orca até Alto do Ipiranga, metrô até Vila Madalena, ponte Orca até Cidade Universitária, e de lá o trem até a estação Vila Olímpia. Se existe algum outro caminho? Sim, mas vc tem que pegar trem e ônibus, o que demora mais que fazer essa aventura toda. Conheço quem considera que o Via Funchal fica numa filial da Casa do Caralho. Mais dois shows que eu vá lá de condução e eu vou concordar... (esse é meu segundo show lá).


O fato é: acha que eu dou a mínima? Eu só conseguia mentalizar homens com cabeça de colehinho pulando em volta de mim enquanto me espremia no trem lotado até a Vila Olímpia.


Chegando lá, uma fila de 20 pessoas nos matou de surpresa. De repente a gente se deu conta que era quarta feira e a maioria das pessoas não sai do trabalho as três da tarde como eu... no show do Motorhead, que foi em um sábado, a fila começava dois quarteirões antes... assim como em todos os shows em que eu tinha ido até ontem...


Entramos, e colamos na grade. Para muita gente ali pareceria algo desnecessário. Porque o lugar estava vazio quando abriram os portões. As pessoas iam chegando devagar, mas constantemente.

E foi colada ali na grade que vi o show ser aberto pelo pessoal da rádio.


Nazi é o cara certo para abrir um show, principalmente um onde o público ainda não está confiante porque a casa ainda está meio vazia. Ele tem uma presença de palco cativante e energética, e sabe como fazer as pessoas entrarem no clima. De todos os shows nacionais que já vi, a única banda que tinha a mesma característica tinha outra vibe: o Ultraje a rigor. O Nazi consegue ter o público na palma da mão, e, principal para mim em um show, existe uma clara sensação de que a banda está se divertindo ainda mais que nós. Eles riam, eles brincavam entre si, o Nazi fazia aquele truque com o microfone de ficar girando ele no ar e pegar com a outra mão, que é besta mas visualmente muito estiloso. Uma seleção de músicas ótima. Valeu por ouvir músicas ancestrais do rock brasileiro em versões bacanas, e por ver que, não importa o que aconteça, o Nazi ainda é O cara em palco.


Quando olhei para trás me surpreendi em como tinha chegado mais gente durante o show dele. No intervalo antes do show do TSOL, já fazia bastante sentido estar colada ali para ver o show.


TSOL aliás, foi uma incrível surpresa. Porque eu não conseguia identificar a banda até eles começarem a tocar e eu me ligar que a idiota aqui conhece um mundo de músicas do TSOL; mas quem disse que eu me lembrava do nome da banda? Assumo nesse momento que não sou uma super heroína e não consigo lembrar metade dos nomes de bandas que eu gosto... o jeito é aproveitar que meu pai descobriu o you tube e fuçar nos vídeos favoritos do orkut dele... De todo modo, foi um show muito bom. Eles criam empatia com o público, e a galera que estava assistindo ficou bem motivada. Continuou o clima de empolgação crescente que o Nazi começou, e mesmo quem tinha ido lá para curtir outras bandas, como eu, pode ter diversão genuina com o show do TSOL.


Vale deixar em primeiro plano que foi o máximo antes do show o vocal dos caras ajeitando o microfone na maior naturalidade ao invés de mandar um roadie fazer isso. É legal ver esses pontos de humanidade numa banda...


Gene loves Jezebel foi algo além. Foi catártico. Foi mágico. É difícil falar porque foi muito bom. E deu para ver como os olhos do vocal são lindos... foi como se reencontrar com coisas minhas que estavam guardadas a muito tempo. O som é muito bom, a presença de palco de todos é intensa, e eles também parecer sentir prazer no que fazem. Aliás, “prazer” é um perfeito signo do que significa um show deles, porque a coisa é toda nesse sentido. É sensual e corporal. Preciso fazer uma anotação para a camiseta que ele estava usando, que era linda, e a bandeira do Brasil pendurada na cintura. Era muito contagiante e a vibe era muito intensa. A banda anima qualquer público (que a essa altura o Via Funchal já estava lotado), e o Aston faz sexo com o público. O show chegou ao fim e eu pensei que se fosse para morrer naquele instante eu morreria feliz e realizada... o show durou até praticamente mandarem eles parar, e mesmo assim eles esticaram o que puderam.


O intervalo mais longo entre os shows foi entre o GLJ e o Echo. A cada intervalo dos shows, os locutores subiam no palco e distribuiam camisetas... E foi nesse intervalo que consegui uma...ou melhor, o Marlon pegou uma para mim. Preciso dizer que a camisa é linda, manga longa, super bem feita. Muita camiseta promocional parece que vai desmanchar na primeira vez que se usa, mas essa parece mais resistente... vamos ver como se sai daqui uns meses =).


E começaram a ajeitar o palco do Echo. Poe ventilador, poe toalha, liga uma dúzia de pedais para cada guitarra. Eu acho muito válido isso. Pode parecer frescura para quem nunca cozinhou debaixo de um refletor de palco pedir por toalhas ou ventilador, mas eu apoio totalmente.


O show começou lá pela meia noite. E foi um show lindo. Muito intenso, muito gostoso. A banda tem uma força sonora ótima, e personalidade. Foi divertido ver o Ian colocando o povo da imprensa para fora, porque no começo de cada show era um saco, ficavam dúzias de fotografos no pé do palco fotografando, o maior saco. Ele mandou os caras cairem fora, para alegria de quem estava na grade querendo ver o show em paz. O show foi bem longo e teve dois bis, então deu para curtir bem. Foi bacana ver como o público estava fascinado pelo som, e apesar do ar blasé dos caras, foi bacaníssimo. Eu não dou a mínima para estrelismos (o atraso do show foi causado pela ausência de um secador de cabelos...), e me diverti demais. Me deixa muito feliz ir a um show que ue curto do inícoo ao fim como foi esse.


E o fim do show não foi o fim da aventura. Estavamos sentados na porta do Via Funchal, vendo as barraquinhas irem embora e a casa fechando, porque iamos esperar os trens voltarem a correr para ir embora. Estavam dez pessoas lá sentadinhas. Os taxistas estavam meio indignados com aquilo, eles parados do outro lado da rua e a gente esperando o trem. Um dos taxistas começou a perguntar de onde a gente era e descobrimes que, curiosamente, todos eram o ABC, três de são caetano, um de santo andré, e cinco de mauá! (e não conheciamos os outros três mauaenses). Então ele fez a proposta: dez reais por cabeça e todo mundo voltava para casa de Doblô. Topamos, claro, porque entre ficar até quatro e meia parados lá e três da matina estar em um carro quentinho rumando para casa não tem comparação. Então voltei para casa de táxi, ainda meio apaxionada por tudo que tinha visto, e curtindo muito a sensação de que valeu a pena.


E assim terminou a lua do louco... voltando para casa olhando a noite rodando pela rua, enquanto minha mente viajava nas músicas e nas imagens daquelas bandas.


Posted by Sarah on Jun 30, '08 8:04 PM for everyone
Beija Flor dá uns passos rápidos, meio pulados, quando se trata de independência. Talvez por fazer o próprio ritmo, ele tem dessas.

Deixar fazer o próprio ritmo é meu mote como mãe. Desde o parto, natural, normal, não hospitalar,sem grito, na penumbra, nunca vou me esquecer, sem choro, olhando em volta com naturalidade, sem aumentar um batimento cardíaco.

Desde então, nada foi feito com pressa, embora certas coisas sejam muito mais rápidas do que esperamos. Assim, ele ficou reclinado no carrinho e não deitado desde os primeiros dias, porque chorava se ficasse deitado... queria ver o mundo.

Fazer o pequeno falar foi um desafio e tanto. Não mostrava nenhum interesse na fala até descobrir a escrita. Depois que descobriu a relação entre palavras e letras escritas e o som, começou a falar. Soletra as palavras, lê os logotipos, e aprende os números, já sabe que um, dois e três são quantidades, e conta. Não é de falar muito, é um menino silencioso, e eu respeito seu silêncio.

Mas ele canta, e dança, e sua palavra preferida no mundo é "música", assim ele explica quando batuca com os pés, para não tomar bronca: "é música". Assim ele escolhe os desenhos que gosta de ver na tv: pela música.

E assim, não apressei ele a andar, não apressei a falar, insisto, sim, que se comunique, quando quer alguma coisa, mas deixo que ele trace seu caminho.

É engraçado ver ele falando "Jêus", porque acha que Jesus é Zeus, com certeza é engraçado. Ou querendo acender a vela dos ancestrais, verificando antes de sair de perto do altar que eu esteja longe para soprar a vela...

É engraçado ver que ele decorou a abertura de Backyardigans.

É enervante que toda caneta ou lápis tenha de ser controlado porque senão ele risca desenha e escreve em tudo que for possível.

E que agora ele decidiu que deve tirar a fralda, e como é complicado fazer ele entender que então precisa avisar se quer o banheiro... o que é bem cansativo de convencer alguém que quer fazer tudo sozinho.

É bom ver que ele bebe no copo, que ele nunca tomou mamadeira. Que foi experimentar algo além do meu leite quando tinha mais de 7 meses. Não acho que todo mundo tem que fazer igual, mas fico feliz que com ele seja assim. Fico aliviada quando vejo que ele graças a isso já se livrou da alergia, que pode agora consumir o chocolate que tanto gosta. Mesmo que prefira leite de soja ao de vaca, sempre, ele gosta de iogurte, brigadeiro, e pode comer . E está enorme de alto, e pesando quase 16 kilos.  E que isso para quem teve desnutrição por alergia é uma vitória extrema.

E assim ele vai dando seus passos em rumo de uma independência que eu não tenho pressa que chegue, porque quero que chegue com segurança. E assim, ele não vai a escolinha, mas fica com a gente mesmo o dia todo, em regime de revezamento, e carregamos ele para onde vamos. E tudo vai bem.

Já fazem uns meses que ele diminuiu as mamadas. E assim, foi deixando de mamar no peito, naturalmente, no tempo dele. No ritmo dele. Voltando quando se sentia inseguro. E agora, ao que parece, definitivamente parou... sem pressão, sem forçar a barra.

Constrói teu mundo, Beija Flor, mensageiro divino, criança  dos caminhos,  força no braço e no coração que a tua mãe jamais vai ter.  Meu pequeno lobo, meu mestiço de coiote. Segue sempre, que sempre vou estar aqui.

Posted by Sarah on May 31, '08 10:42 PM for everyone
Temos tv a cabo. Meus pais assinaram NET e puxamos um ponto pra nossa tv. Eles ficam felizes com a internet skavurska e meu pai descobre as maravilhas do youtube, e eu quase morro quando descubro que na TV Rá Tim Bum, as onze e tanto da noite, passa Bambalalão!  

Talvez nem todo mundo lembre do bamba. Mas eu lembro. Eu tenho fotos com o  Pam Pam e com a Gigi, eu era apaixonada pelo Bambaleão (que a porpóstio, Bambaleão e Silvana também passa na tv ra tim bum).

Fui duas vezes no programa. Não lembro muita coisa, lembro da emoção de estar lá, de ver as pessoas de perto, de sentar no colo do Pam Pam para tirar foto... uma das minhas fotos preferidas da vida.

E de repente eu tinha 5 anos de idade. 

Eu não sou do tipo nostalgica.  Sinto falta de coisas do passado, mas não sou do tipo que queria voltar ao passado. Nem ferrando. Sim, tive muita coisa boa, mas as ruins foram bem ruins... mas Bambalalão e Castavento foram dois programas que marcaram minha infância boa.. E mais que tudo, foram coisas importantes para minha formação, para aprender a viver. Para ser quem eu sou hoje.


Foi muito bom rever o Bamba.

Essa foi uma coisa que eu não esperava que a tv a cabo fosse me trazer.

Posted by Sarah on May 27, '08 9:15 AM for everyone
Eu tenho uma ansiedade que me corrói pelas entranhas. Para tudo na vida, mas principalmente para o que é maior que eu. Lendo o texto que a Pietra publicou no Tribos, eu fiquei pensando um pouco nisso.

Lembro de ser adolescente e estar super mal com alguma coisa, alguém vir perguntar "o que vc tem?" e minha resposta ser sempre a mesma (que se repete até hoje): Eu tenho anseios.

Não sou do tipo que poe a carroça na frente dos bois, e comparado por ai, não fiz tanta merda no caminho quanto eu esperaria. Nunca me meti com algo que não pudesse lidar, mas nem sempre me sai do melhor jeito. Comecei com o tarot quando era novinha e maluca, sem um pingo de disciplina (que aprendo a duras penas a disciplina), o que mais atrapalhou do que ajudou, porque precisei agora, mais madura, correr atrás. Me envolvi com política muito cedo, e muito cedo abandonei porque aquilo me desgostou totalmente: não tinha maturidade para sobreviver a certas coisas. O que fiz, fiz bem, mas poderia ter feito mais.

Ter paciência nunca foi meu forte. Sempre tive a presença da morte, muito colada em mim. Sonhava com o anjo da morte me namorando. Precisava fazer tudo ao mesmo tempo agora, porque esperava a morte. Nem quando fiquei grávida ele me abandonou. André nasceu com o berço desmontado, e roupa para dez dias.  Quatro pacotes de fraldas, pequenos. Eu não arriscaria a dor de ter que desmontar tudo e me livrar de tudo se algo desse errado. (perdi meu sobrinho recém nascido três meses antes do André nascer). Ser paciente era um risco para mim.

Mas me bateu a consciência de que a gente só faz as coisas quando está pronto quando eu me dei conta de que por dois anos eu tive o dinheiro preciso para ir fazer o Caminho de Santiago, e não fui. O dinheiro virou meus móveis, e agora me organizo para voltar a juntar tudo de novo. Sem pressa alguma, e com outro destino primário. Quero ir para a Turquia conhecer o Lethoon, molhar os dedos no Xantos e só depois me aventurar pelo resto da Europa (a começar por Dodona). Aprendo, a duras penas, que não adianta colocar a carroça em frente aos bois, e espero estar pronta um dia. Desejei ir para lá quando vi pela primeira vez o lugar em fotos, mas cada vez que revejo as fotos, que encontro novas fotos, capturo símbolos que vou tentando descobrir o significado. Aprendo uma coisa ou duas; doze escapam.

Do mesmo jeito, mesmo tendo uma nota excepcionalmente alta no ENEM, fui fazer uma faculdade salesiana desconhecida da maioria das pessoas ao invés da USP, porque perdi a inscrição no FOVEST. E naquele lugar conheci as pessoas que precisava conhecer, e descobri que minha profissão, seja qual for, tem que estar na arte. E vivi as trips que precisava viver. E conheci a Senhora Hécate, e a partir dEla, me voltei para a obviedade maior que era louvar os Deuses greco romanos. Porque ninguém entra numa casa salesiana por acaso, já disse a Irmã Iracema, que me mostrou uma fé totalmente nova para mim e que serviu de exemplo. Eu não tinha maturidade para encarar a USP naquele tempo.

E do mesmo jeito, meu encontro com minha Senhora foi a tão poucos meses, e me sinto corroer de ansiedade as vezes porque olho para Ela e me sinto sem chão, por nunca ter certeza de estar fazendo as coisas certas, por me sentir insegura, por escavar cada fragmento, e ler mil coisas para tirar um parágrafo. Por me sentir, as vezes, absolutamente solitária, sem saber para onde correr, porque tenho pavor de ofender a Ela. E que cada vez que sinto que preciso fazer alguma coisa (como com Zeus ultimamente), fico com mais medo ainda de fazer besteira.

Mas ai eu paro e penso. Catso, vc só tem 25. Vc só tem alguns meses cultuando essa divindade que até então era só seu pano de fundo no culto aos filhos dEla. Vc não precisa morrer por dentro a cada dia, sua besta.

Acho que para mim, paciência consegue ser mais difícil ainda de digerir do que disciplina...
Mas se eu consigo aprender disciplina, hoje sem dar tanto com a cara na parede, acho que cedo ou tarde aprendo a paciÊncia





Posted by Sarah on Apr 28, '08 1:15 AM for everyone
meus sonhos tem sido meio rave ultimamente. Sonhos bons, é certo, como a muito eu não tinha. Como se fosse acontecer outro eclipse de saturno (isso foi um dos sonhos mais legais da minha vida...rs). Tantas pessoas que eu só conheço de avatar se perfilaram na minha mente, e quantos amigos que passaram para fazer uma visita.  E lugares deslumbrantes.

Estou imaginando quando vou visitar o velho Fiddler's Green.  Não literalmente, porque apesar do meu desejo de morte recorrente, eu ainda não quero beber desse rum, mas em sonhos.

Fico aqui imaginando como será o sonho dessa noite. Hoje senti vontade de escrever, pela primeira vez em meses. E ontem finalmente, voltei a desenhar. Não é como aquele impulso criativo brutal da Estrela, é mais contido, mais disciplinado, mais contínuo.

Me sinto bem. Melancólica, talvez, cansada, muito. Mas me sinto melhor agora, já que não adianta me exasperar, e as cartas foram tão claras em me lembrar que tudo acontece da melhor forma.







 











quer me fazer feliz? »»»»»»»»»»»»»




Posted by Sarah on Mar 30, '08 1:09 AM for everyone
é engraçado, porque da outra vez que meu óculos quebrou eu já tive essa percepção. Sem os óculos, meu mundo fica pequenininho. Vira microcosmo. Eu aprendo que não posso agir além da minha percepção. É o que está a 40 cm de mim que importa, o resto praticamente não existe. é como se o mundo deixasse de ser importante, porque sai fora da minha esfera de ação - sem enxergar, sem agir. Me dedico a coisas pequenas, pensamentos pequenos, me fecho em mim, e isso é bom.

Ao mesmo tempo, voltar a enxergar é uma trip. Numa prova de que a Torre é uma bosta, mas uma bosta necessária, eu descobri que por motivos totalmente desconhecidos, minha miopia diminuiu um pouco e meu astigmatismo diminuiu quase um grau inteiro. Agora, são 3 graus de miopia, mais ou menos, e 2 de astigmatismo, tbm mais ou menos. Então, colocar o óculos novo na cara foi muito mais que simplesmente voltar a enxergar como com o óculos velho. Foi passar a enxergar muito melhor do que antes. E descobrir que quase dói enxergar direito.

O mundo ficou enorme. Enorme e assustador, porque muito mais nítido. O astigmatismo tem como característica "borrar" a  visão: meu mundo sem óculos é como uma foto tremida. Com o grau do óculos fora de ajuste,  eu via tudo ligeiramente tremido, os contornos nunca eram nítidos. (era como se tivessem usado, em linguagem de photoshop, um ligeiro gaussian blur no mundo).

Agora, tudo tem linhas, tudo tem divisas. Não é aquela suavidade que atrapalhava nos momentos mais impróprios. É o que é.

Ao mesmo tempo, aprendo a me defender de outras formas. O óculos tem um clip on escuro. E óculos escuro é parte de mim. Eu tenho fotofobia, meu olho é sensível a luz. Ele dói, lacrimeja e me deixa desorientada debaixo de luz forte. Eu sou definitivamente, uma criatura da noite... ou pelo menos de densas florestas, sol direto não rola. O óculos escuro me permite ver muito melhor do que só o óculos. Meu mundo ficou com cores mais bonitas. O sol não me machuca mais.

Ao mesmo tempo, curiosamente, no ano de marte anterior, eu tinha feito meu primeiro óculos com clip on. Usava o dito cujo o tempo todo. Acho que olhando para 2001, só o que possso pensar é que foi o ano em que eu já sabia quem eu era, não precisava me descobrir, e pude me dedicar a ser eu mesma sem preocupações. Estava integrada na facul, tinha um caso que era bizarro mas me satisfazia e muito, me tornei muito mais segura de mim.
 
Tudo isso porque estou de óculos de novo...rs

Ele tem lentes de vidro. São mais grossas e mais pesadas que as de acrílico, mas não riscam... espatifam no chão se cairem, mas não ficam com aqueles riscos horrorosos que meu óculos velho tinha.  Gosto do vidro.  Ele me lembra que vejo o mundo de um jeito único, só meu, porque o peso dos óculos, muito ligeiro, não me deixa esquecer que eles estão ali.

Eu vejo o mundo através de janelas... 

Posted by Sarah on Mar 8, '08 5:16 PM for everyone
Estou para escrever sobre isso desde o dia 4, mas acabei deixando pro final de semana. É uma pequena bobagem para alguns. Mas eu conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida sentada em volta de uma mesa com dados, fichas e livros, interpretando personagens e me divertindo em mundos imaginários.

Morreu essa semana Gary Gigax, que junto com David Arneson foi o criador do primeiro jogo de RPG. Simpático e acessível, paciente com as centenas de fãs que ao longo dos anos bateram na porta dele agradecendo.

Eu sou um desses fãs que agradecem muito a ele, mesmo nunca tendo visto, conversado, sequer passado perto dele.

Foi por jogar RPG que conheci grande parte dos meus amigos, entre eles aquele que viria a ser meu companheiro. Mesmo entre as pessoas que conheci fora das mesas de RPG, um monte deles também é jogador, ou já jogou um dia.

Jogar RPG fez aquela menina arredia e isolada na escola, com um olhar imensamente triste e distante por trás dos óculos horríveis, virar alguém cujos amigos enchiam a casa todo o tempo, segura de si, admirada, até desejada. Entre pessoas que não achavam estranho que ela se importasse com coisas de nível mundial nem achavam estranho quando ela chegava efusiva com uma nova descoberta científica na escola como se falasse de um novo disco pop. E ao mesmo tempo gostasse de moda e música. E nós começavamos jogando e terminava o dia, estava eu ensinando sobre a maneira como os lobos caçam ou o tão querido Bruno explicando teoria política, ou todos ouvindo meu pai explicar química, ou outro contando histórias, e todos nós que jogavamos juntos discutiamos as coisas da nossa vida e cresciamos mais seguros, mais vivos, mais espertos, protegendo uns aos outros de um mundo a que não pertencíamos. Me fez descobrir um mundo inteiro de pessoas, eventos, editoras, livros, lojas, me colocou em contato com o mundo real.

Não adianta dizer que o RPG é só um jogo como se isso fosse algo pejorativo ou ruim. É só um jogo, mas um jogo que nos movimenta, nos coloca vivos, abre os olhos.

Então, fica aqui minha lembrança e o absoluto agradecimento a Gary Gigax, que me permitiu encontrar a chave que tornou minha a minha vida.

Role os dados. É hora de jogar o maior jogo...

Posted by Sarah on Mar 8, '08 4:13 PM for everyone
calhou de ser dia da mulher. calhou de eu estar pensando nisso faz tempo.calhou de estar lendo sobre Hécate e sua triplicidade, e correr o olhar para a Hécate de Chiaramonti, na minha parede. e então pensar, ué...

Cada vez mais eu entendo menos a idéia de jovem/mãe/anciã. Penso nas fases da minha vida como nas fases da lua. E como na lua, sempre volto a fase por onde já passei.

Eu sou jovem e sou mãe. E conheço mulheres de idade avançada que são sensuais e belas. E conheço meninas maternais e mulheres que a vida inteira vão ser donzelas. E a Hécate na parede me sorri com seus três rostos, todos os três de uma idade indfinível, nem jovem nem velha.

Hécate para mim é uma mulher de meia idade com um sorriso no rosto e uma roupa bonita, preta e brilhante, bata de meia manga, usando um anel com uma discretíssima ampulheta e uma dessas pulseiras cheias de balangandãs, com chave, coração, unicórnio, cachorro, gato, trevo, um colar de cerâmica, desses bem perua, no pescoço.

Não consigo mais, ver a mulher compartimentada como se só pudesse ter um papel por vez. Ela é tudo ao mesmo tempo agora, eu, você,  cada mulher, e cada homem, somos tantas coisas ao mesmo tempo. Somos fases da lua que se seguem e retornam  sempre.

Época de curar e de se curada, de brincar, de afagar, de amar, de rir, de odiar, de morder, de gritar, de sussurrar, de fazer poesia, plantar temperos no jardim, cozinhar pra alguém, cozinhar pra si mesma, ficar sem comer, rolar na areia, cantar, chorar, época de abraçar um arquétipo e época de rasgar ele em dois.

Estou lendo "de balão" (quer dizer, sem compormisso) de novo o Mulheres que correm com os lobos. Gosto do livro. Ela fala muito isso: não podemos tentar viver um arquétipo, o  ser humano tem que respeitar o seu tamanho.

Estou divagando.

Em resumo, é isso: será que podemos pensar nas mulheres como donzela / mãe/ velha, e acabou? Será que não é muito maior que isso?

Posted by Sarah on Feb 22, '08 8:02 PM for everyone
Ontem eu me senti num misto de diversão e culpa que não me deixava pensar em outra coisa que não Nero vendo Roma pegar fogo.

Sete e meia da noite minha mãe ligou avisando que ainda não tinha chegado na escola onde dá aula a noite (de dia, damos aula na mesma escola, em horários diferentes). Ficamos um tanto preocupados, mas não tinha muito o que fazer. Vinte para as dez o diretor da escola liberou todo mundo, porque senão ninguém ia chegar em casa.

Nós moramos a quinze minutos de carro da escola, só para constar. Quinze com trânsito ruim.

Onze e meia ela chegou aqui. A pé. Largou o carro perto da casa de uma amiga, alguns quarteirões de casa. Da minha varanda, dava para ouvir o som de buzinas, berros, motores.

Na remota possibilidade de conhecerem Mauá: eu moro na continuação da rua da prefeitura.

 Para chegar em Santo André, ou no Parque São Vicente, os caminhos quase todos passam por perto da minha rua, que é sem saída. Com enchente, chuva e trânsito caótico, um carro levava trinta minutos para andar dois quarteirões.

De casa a gente via as luzes paradas por quilômetros na Papa João XXIII (sim, a que vai ser o acesso do rodoanel), nas ruas do parque são vicente. Na esquina de casa, carros começaram a subir a rua da prefeitura pela contra mão tentando achar um fluxo e ficavam presos na esquina da minha casa, em um congestionamento enorme, de carros, caminhões, ônibus. Nem as motos conseguiam passar.

Algumas pessoas estacionavam na rua de casa e ficavam olhando, como nós. Brotavam celulares de gente tentando avisar que estava preso no trânsito, que não sabia quando ia chegar, pedindo notícias dos outros.

E eu ali, assistindo tudo, comecei a rir. Não que eu não me preocupasse: muitos amigos estavam presos em algum lugar entre São Paulo e o ABC (a Inês, dois colegas de trabaho, um mundo de outros conhecidos). Mas era tão surreal que a meia noite minha rua tão pacífica estivesse ilhada por uma torrente de carros, que eu ri. .

E eu fiquei pensando. Vai, todo mundo vai ter carro, quem se importa com aquecimento global, quem se importa de asfaltar todos os caminhos da chuva, quem se importa de construir o sistema ferroviário dentro do leito seco de um rio (sim, é assustador, mas eles fizeram mesmo isso, por isso sempre enche os trilhos), de jogar lixo no leito dos córregos, quem se importa em super povoar um lugar que não tem condições de sustentar tanta gente?

Claro que um monte de gente presa no trânsito se preocupava com isso, mas a maioria não. A maioria é de umbigocentristas que se lixam para sustentabilidade.

Mas nessa hora eu me senti o próprio Nero vendo Roma pegar fogo... assistindo de camarote ao caos total que se espalhava a minha volta.

Posted by Sarah on Feb 8, '08 11:06 PM for everyone
Fazia tempo que não tinha essa sensação. Aprendi a ler muito pequena, mal me lembro como era olhar um livro e não saber o que estava escrito. Mas hoje senti de novo o fascínio e a sensação mágica de ver os riscos pretos das letras se transformando em significado.

Koshari entrou no curso de japonês. E precisa de mim para ajudar a estudar. Por isso, vou fazendo japonês por tabela. E hoje, enquanto ajudava ele a estudar, lembrei que temos uma cartilha japonesa em casa.

Eu já tinha folheado ela dezenas de vezes, porque ela é linda. Raríssimas vezes encontrei um livro didático brasileiro tão bonito quanto aquela cartilha. Mas de repente, as letras até então incompreensíveis, faziam algum sentido para mim.

Não todas. Mas quando abri a primeira lição da cartilha, reconheci, ainda devagar, as vogais.

Aquilo era um "a". Do lado, um "i", depois um "u", seguido de um "e". No fim da página, "o".

Virei a página, e reconheci um "su", um "sa", um "ka", um "ko". No meio do texto ilegível, elas brilhavam para mim.

Foi mágico. Ver que aquilo que a um mês atrás, com poucas horas de conversa não era mais algo totalmente incompreensível, mesmo que eu compreenda pouco mais que as vogais. De repente, aquilo era possível. De repente, o texto se abria diante de mim, e minha curiosidade me mordia por não saber o que dizia o texto todo, só letras esparsas.

De repente, eu sabia que ia aguardar ansiosa a volta dele da aula para podermos estudar juntos mais um pouco, enquanto eu treino a grafia das letras na lousa para ele dizer o que elas significam, enquanto discutimos a pronúncia de algo bobo como "aqui" e "lá".

Como é bom aprender algo novo. Como é bom lembrar o quanto é mágico entender as letras.



E  é muito mágico ver a alegria enlouquecida do Beija Flor gritando "sapo!" quando aponta para o "s", ou como ele sai reconhecendo todos os "B" e "A" em tudo que a gente escreve. Ele quase não fala, mas fica horas com seus cartões de números 1, 2, 3, 6, que são so que ele conhece bem, vindo com o 4 para confirmar se é mesmo um 4, pegando nosso dedo e esfregando em cada letra e palavra e número, exigindo saber o que está escrito... 

É magia para mim ver como a minha casa  é sempre a casa dos livros e das letras, mesmo para o Beija Flor, e para nossos amigos, e como os livros de poesia brotam em lugares imprevistos, e como tudo vira aventura e descoberta em páginas de papel...


Posted by Sarah on Feb 1, '08 11:19 AM for everyone
como faz um tempo não tinha.

Eu gosto de filmes de romance e drama. Gosto de chorar no cinema, gosto de me comover com a trilha sonora. É bom, porque acaba quando acendem as luzes.

E eu gosto de Bruna Lombardi

Amo a beleza dela, amo a poesia, e ai pinta esse filme, com orteiro dela, e ela no papel de uma astróloga de rádio e tarologa na cidade de São Paulo... uns trechinhos de entrevista dela sobre o filme:

 "mesmo quando você acha que não pertence, quando se sente excluído, tem de pensar que faz parte de algo que conecta todo mundo. "

"O conceito básico do título é que estamos debaixo do signo dessa cidade, regidos por seu peso. O céu da cidade se mexe e cria os dramas que se escondem atrás da janela dos apartamentos. Para mim, essa idéia remete à espiritualidade, à busca do homem que olha para o céu e pergunta aos deuses se são eles que nos guiam, o quanto é livre escolha, o quanto já está escrito. Remete a essa forma de religiosidade, que iguala a todos nós, e que consiste em olhar para o infinito, para essa coisa maior, tentar compreender o que não tem resposta, sentir a existência do invisível e se fazer essas perguntas."

parece que vai ser fofinho... só preciso agora achar um cinema onde esteja passando pra eu ir...


Posted by Sarah on Jan 28, '08 11:17 PM for everyone
Não dá pra dizer que eu não estivesse ansiosa, embora já tivesse traçado algumas possibilidades. Hoje foi a atribuição de aulas. Com o governo estadual fodendo a grade da suplência de novo, optei por menos estresse, menos insatisfação com saber que ia estar fazendo um trabalho porco, menos chance de explodir e brigar. Não foi fácil não fazer essa opção. Eu assumo que chorei. Chorei porque a equipe que trabalho é maravilhosa, porque pela primeira vez na vida eu não tinha vontade de sair correndo do emprego e nunca mais voltar, apesar do problemas, eu estava onde queria estar.

Mas a Torre tinha sido bem clara: acabou, não adianta tentar ficar no meio dos escombros.

Perco o adicional por trabalho noturno, ganho tempo para trabalhar mais ativamente com artesanato, para poder complementar a renda. Posso ir a todas as vernissages, noites de autógrafos, curso, palestras que forem noturnas que tiver vontade. Trabalhar das onze as três cinco dias por semana não me parece tão ruim.

No fim, saio pela tangente, compro um novo desafio, volto a dar aula pra criança, e começo um ano diferente, e cheio de idéias para correr atrás.

Posted by Sarah on Jan 27, '08 11:14 PM for everyone
Eu estou passando por uma situação no mínimo surreal. Justo no ano do centenário da imigração japonesa, eu me vejo mudando de foco por completo, e enxergo nas velhas lições de oriente dos meus pais o eixo que me dá um rumo nessa mudança.

Eu usei uma terminologia roubada da Clarissa Pinkola Estés, sobre "mantos" que vestimos. Eu usei um manto por muito tempo, e agora é hora de desvestir esse manto que honrei e usei com dedicação e carinho, e envergar outro. Um manto tão honrado e que espero conseguir vestir com ainda mais dedicação e carinho. E pensando nisso, nesse manto que me acostumei a sentir o peso nos ombros, penso em como as pessoas deturpam seu sentido.

Eu vestia o manto da guerreira. Uma guerreira (ou guerreiro, o que dá na mesma, porque o primeiro ponto a se saber é que um soldado não é homem nem mulher, é soldado), tem que conhecer o sacrifício de sua individualidade. Um guerreiro não tem vontade sozinho: sua vontade é a vontade da corporação de armas a que ele serve, é a vontade de seu general, de seu rei, de seu cardeal, de seu ministro, a vontade do líder a que ele confiou a espada e a vida.

Claro que o guerreiro tem idéias próprias, vontades pessoais, desejos. Mas existe algo acima disso, e o guerreiro abandona tudo para se por em marcha e lutar.

Justo por isso, o guerreiro está sempre na defensiva. Ele sabe que os seus inimigos, e mais ainda, os inimigos da sua causa, estão em todos os lugares, e é preciso impedi-los. Talvez o inimigo se deite em sua cama ou beba do seu vinho, por isso o guerreiro se dá por completo a sua causa, a seu rei, a seu país, a sua pólis. Apenas essa figura complexa e sem rosto fixo pode realmente encontra-lo desarmado, porque meros mortais não são confiáveis. Mortais te apunhalam pelas costas. E você sente prazer em beber vinho e ter companhia na sua cama, mesmo sabendo que tem de ter olhos abertos, porque isso são coisas boas, afinal.

Os únicos homens que podem conhecer seu íntimo são os que lutam do seu lado. Porque você depende deles e eles dependem de você. É necessário uma completa confiança, como se fossem todos braços do mesmo corpo. Mas é sempre importante lembrar que esses companheiros, um por um você vai enterrar, até o momento em que um deles vai enterrar você. E que isso realmente não importa: não adianta ter medo disso.

Um guerreiro pode amar o luxo, mas abdica dele. Um guerreiro escolhe a cama mais dura, o cobertor mais fino e dorme menos do que desejaria. Come pela necessidade e caminha mesmo sem sentir as pernas. Não reclama. Para o guerreiro, não é preciso ser bonito (embora alguns guerreiros adquiram uma beleza que só honra e selvageria podem dar a um rosto). É preciso ser ágil, preciso, obediente, silencioso. Praticidade importa mais do que prazer pessoal.

Lembre se que o maior prazer está na guerra. Quando o inimigo estivar gorgolejando sangue na sua frente, você vai rir da idéia de dormir mais uma hora. Quando marchar ao som dos tambores, seu grito de vitória será o maior dos luxos.


Eu entendo o que significa isso. E eu poderia escrever muito mais. Resumindo: uma guerreira não vive por si, vive pelos outros e pelo bem dos outros, não o outro seu irmão, seu amigo, seu amante, mas o outro desconhecido. Sua honra é sua vida, e  falar contra sua honra é morte. Do mesmo modo, falar dos outros abertamente, sem provas, é vergonhoso. Um guerreiro é tudo, menos alguém livre. Pelo contrário, a única liberdade do guerreiro é a de escolher seus grilhões. Um guerreiro é devotado a algo muito maior. Um guerreiro vive flertando com a morte.

Eu fui criada como guerreira, em uma casa que mesclava uma visão cristã primitiva e um comunismo idealista e posto em prática em tudo. Tudo era dividido, todas as decisões compartilhadas, e todas as responsabilidades também. Mas a disciplina era militar. Eu cresci ouvindo lendas mescladas com trechos de histórias da arte da guerra, tendo as virtudes do guerreiro como meta de vida,  chorando de dentes cerrados quando tomava uma bronca, porque decepcionar meus pais me era muito mais mortal que tomar um tapa.  Cresci lutando por ideais, e com 14 anos eu surpreendia as  pessoas por já ter uma história de militância não só partidária, mas principalmente envolvida com ativismos que não eram moda como hoje em dia.

Fico aborrecida, no sentido tedioso da palavra com como as pessoas usam mal esse termo. Acham que se alguém é forte, é guerreiro. O catso. Ser forte porque consegue superar obstáculos, porque consegue vitórias pessoais, não é ser guerreiro. Ser forte pra si mesmo, superar as coisas difíceis da vida, para um guerreiro isso não significa nada mais que sua obrigação. Um guerreiro não conserva a própria vida, um guerreiro entrega a própria vida em nome de um bem maior. Ser sobrevivente não é ser guerreiro. O caminho do sobrevivente é um outro, e conheço gente que veste esse manto com o mesmo orgulho com que eu vestia minha armadura. Isso tudo ai é ser sobrevivente: é conseguir superar a adversidade, superar barreiras, e coisa e tal.

De modo simples: o sobrevivente depois de ter sido marcado a ferro, jogado em um campo de concentração e visto horrores e sofrido torturas, está vivo para quando o guerreiro, fuzil na mão, olhar agudo, depois de enfrentar as agruras do front com naturalidade, vier liberta-lo.

Claro que existem pessoas que tem essas duas coisas. Olga Benario, vestiu os dois mantos e ainda o de mártir, sem querer. Entendo que haja alguma confusão, mas não entendo a substituição de um pelo outro.

Eu espero que daqui a vinte anos eu consiga falar com tanta naturalidade sobre gentileza e douçura como falo de guerra e virtude. Porque isso é minha história, e aprendi muito com isso. As virtudes do guerreiro são um justo guia que sempre vai estar a tona.

Não acho que fui uma boa guerreira. Cai muitas vezes, como qualquer garoto jogado na guerra sem completar o treinamento direito. Muitas vezes eu errei: minha fúria quase sempre foi maior que meu discernimento, e isso não é desejável. Mas não sou uma sobrevivente, não preciso ser forte por mim. Eu lutei, eu cumpri meu papel, eu estive envolvida em todas as mudanças importantes da minha cidade desde meus doze anos. Eu mudei a cabeça de um bocado de gente. Eu cumpri meu papel, e quando meu amigo se reencontrar comigo no outro lado do rio, não vou ter nenhuma vergonha sobre isso.

Hoje, aprendo a suavidade. Não mais o embate direto, encontro outros caminhos para prover o bem comum.

Posted by Sarah on Jan 16, '08 6:23 PM for everyone
Abri meu imenso vidro de Pralinutta. Eu particularmente gosto mais de pralinutta do que de nutela, acho mais leve. Mas a safada é belga e eu só encontro no Carrefour. Ok, reza a lenda que junto com o rodo anel vai abrir um Carrefour perto de casa. Por consequência, não vou precisar pedir carona pro meu pai para ir ao Carrefour, por consequência, mais pralinutta presente na minha vida.


estou falando da mocinha da esquerda, pura avelã com chocolate


Bobagem eu sei. Mas quando vc pega uma larga fatia de pão doce caseiro, abre a tampa de rosca lendo com o canto do olho a palavra "hazelnut", e passa no pão uma camada daquele creme que tem a exata cor castanha da perfeição, e uma consistência indescritível, você tem uma nova perspectiva do universo.

Tenho pensado muito nisso. Acho que é efeito do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas realmente tudo conspira para eu crer que somos realmente as lontras do universo. Criaturas de prazer e diversão.


Só para tornar mais perfeito, a empresa que faz a pralinutta também faz o Pez. Acho que poucas coisas no mundo me fazem tão infantilmente feliz quanto Pez...



Posted by Sarah on Jan 6, '08 6:01 PM for everyone
as vezes me cansa ver como as pessoas podem ser obcecadas com o passado, sem deixar aquilo que devia ficar para trás para trás. Existem coisas que se deve deixar morrer, acabou, finito, over.

Tenho tanta coisa na cabeça. Minha Deusa, que me assoma o pensamento mais a cada dia, meus planos, minhas idéias, meus jogos, meus seriados. Coisas sérias, coisas bobas, coisas que com o tempo vou esquecer, coisas que sempre vão ficar. Mas, sempre, coisas presentes. Talvez por ser libriana, talvez por ser do ano do cão, talvez simplesmente por ser um bichinho esquivo e observador que aprende, a duras penas, a manter a língua atrás do redil dos dentres.

2007 foi um ano longo e produtivo. Tanta coisa aconteceu que o tempo antes dele ficou longe, longe. Então deixo as pessoas com suas reminiscências, sento e escrevo. Leio umas coisas. Olho o Amazon (quero comprar o Housewives tarot, mas a Cultura não tem). Tento convencer o Beija Flor a descansar um tempo.

Como a gente muda em um ano.. como eu mudei em um ano...



Posted by Sarah on Jan 4, '08 10:35 PM for everyone
...eu andar meio sumida. meu janeiro tem sido pra lá de estranho, e um bocadinho complicado... 

Posted by Sarah on Dec 26, '07 1:17 PM for everyone
Meu ritual de lua cheia começou dia 23 e só terminou quando fui dormir essa noite. Natal é a festa da minha família, a festa dos meus antepassados. Falamos dos presépios que vieram da Itália e de Portugal, montados por minhas bisavós (e dos quais sobreviveram um camelo e um pastor em terracota), e do presépio que minh avó montava, substituido em 2004 por este atual, que eu comprei e pintei e que a cada ano adicionamos algo novo. 

Decorei a minha varanda, passei a noite do dia 23 montando decoração, embrulhando presentes, pendurando luzinhas. As luzinhas, memória recente, do meu falecido avô, que adorava luzinhas de Natal, e sempre comprava piscas que espalhava pelos lugares mais inusitados da casa... Os presentes, que não são presentes de obrigação, mas de amor, que eu embrulhava pensando e desejando o melhor para cada um que ia receber. E colocando cartões de feliz natal em caixinhas de incenso, para que ninguém venha a minha casa e saia sem uma lembrança...

O dia 24 amanheceu, mas eu tive o prazer de ver a D'Alva brilhando para mim no céu. Todos adormecidos, e eu tendo o prazer da visão de Vênus, surgindo como que por magia no céu azul e lilás que precede o sol. Arrumei a varanda, dispondo mesinhas e cadeiras e cinzeiros de modo que todos ficassem confortáveis, conversas sussurradas passassem desapercebidas, as mesas ficassem de fácil acesso sem gente amontoar nelas. Uma toalha de mesa especial aqui, uma canga cobrindo o sofá ali, e recebi elogios, porque eu tenho visão para essas coisas...rs

Dormi o bastante para descansar, terminar coisas de última hora, e tomar um banho que foi por si só um ritual. E então, preparar o meu clássico tricolore com molho de champignons, arrumar a mesa farta, juntar as pessoas e me divertir. A meia noite, primeira fase da troca de presentes. Cidra de morango, porque eu gosto muito. E então, quando a lua cheia era um disco imenso iluminando tudo, discretamente sair de perto de todos, ir para meu altar, onde, entre o golfinho de Apolo e o busto de Ártemis, está minha mais bonita echarpe preta (afinal Ela é a "do escuro véu"). Acender minhas velas, e começar a agradecer. Agradecer fato a fato, pessoa a pessoa. E então, acendidos os incensos, feitas as ofertas, tirei a carta, no meu velho velho baralho, já que não consegui encontrar nem o art noveau nem o Waite (que deveriam estar no meu armário mas sei lá onde se esconderam).

E lá estava a Estrela brilhando para mim.

Fui dormir altas da madrugada, com o Beija Flor animado me explicando que tinha ganhado pinguins e ursos polares e caminhão e carro e ele falava do "papai Oel", e que ele "que mais pesente". Eu deitei ele e expliquei que se ele fosse um menino bonzinho a Befana ia trazer mais presente dia 6 da janeiro.  Falei o versinho sobre ela, e ele ria,  mas quando eu falei que então ele precisava obedecer a gente, e não fazer birra, ele puxou o cobertor, virou pro lado e não quis mais papo...rs Cantei pra ele, e fui dormir.

Dia 25 foi dia de comer o dia inteiro, porque cada um que chegava trazia comida suficiente para mais um almoço. E ficamos conversando e rindo e falando besteira e fumando e bebendo, até quando as quase três da manhã o AND e o Agostinho foram para casa, depois de eu finalmente vencer uma partida de Once Upon a Time e de planos para o ANo Novo serem feitos. Beija Flor estava empolgado com tudo, dormiu na nossa cama sem a menor cerimônia.

E assim eu fiz meu natal ser meu rito, sendo ele todo um ritual, sendo ele todo um esforço de amor, de auxílio mútuo, de dar presentes e receber presentes, que não são objetos meramente, mas são símbolos, de que somos uma família, eu, meus amigos, e até alguns membros da família de sangue. E que todo esse carinho é premiado com mais carinho, e com uma carta luminosa para um ano novo que comece com o auspício da D'Alva, que me deu um epsetáculo particular na madrugada do dia 23 e da Lua Cheia que participou da festa, o tempo todo visível e risonha olhando enquanto riamos na varanda.

Posted by Sarah on Dec 23, '07 11:46 AM for everyone

Pois é. Eu tenho um lado negro musical. Mas essa música da Ivete sangalo é totalmente meu verão...


Sá Marina

Composição: Antônio Adolfo / Tibério Gaspar

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina vem pra cantar
De saia branca costumeira
Gira o sol que parou pra olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar

Roda pela vida afora
E põe pra fora, essa alegria
Dança que amanhece o dia pra se cantar
Dança que essa gente aflita
Se agita e segue, no seu passo
Mostra toda essa poesia no olhar

Descendo a rua da ladeira
Só quem viu que pode contar
Cheirando a flor de laranjeira
Sá Marina vem pra dançar
De saia branca costumeira
Gira o sol que parou pra olhar
Com seu jeitinho tão faceira
Fez o povo inteiro cantar

E fez o povo inteiro cantar
E fez o povo inteiro cantar
E fez o povo inteiro cantar

Roda pela vida afora
E põe pra fora, essa alegria
Dança que amanhece o dia pra se cantar
Dança que essa gente aflita
Se agita e segue, no seu passo
Mostra toda essa poesia no olhar

Deixando os versos na partida
E só cantigas pra se cantar
Naquela tarde de domingo
Fez o povo inteiro cantar

E fez o povo inteiro cantar
E fez o povo inteiro cantar
E fez o povo inteiro cantar


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